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15 de janeiro de 2018, 11:17h

História inspiradora: Geraldo Amintas, Dores do Turvo (MG)

Medalhas, menções honrosasprogramas de iniciação científica… A lista de prêmios da Olimpíada Brasileira de Matemáti-ca das Escolas Públicas (OBMEP) é um sonho para os fãs das ciên­cias exatas. Mas a honraria mais desejada pelos jovens talentos da cidade mineira de Dores do Turvo está mais ligada à astronomia e à geografia do que ao mundo dos números.

“Na viagem que fizemos ao Rio de Janeiro, só cinco ou seis dos 36 meninos já tinham visto o mar”, conta o professor Geraldo Amin­tas de Castro Moreira, da Escola Estadual Terezinha Pereira, única opção na cidade para o segundo ciclo do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. “Imagina o efeito multiplicador nas outras crian­ças. Elas querem se destacar nos estudos para ir ao Rio, ver o mar, ficar em um hotel… Pequenos luxos que dificilmente alcançariam, não fosse o bom desempenho escolar.”

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Geraldo, o Guingo é responsável por um dos maiores fenômenos da OBMEP. A pequena Dores do Turvo, na Zona da Mata mi­neira, emplacou 229 premiações na Olimpíada, entre medalhas de ouro, prata e bronze e menções honrosas, entre 2005 e 2015, em uma cidade com 4.500 habitantes.

“É uma honra ver o nome de Dores do Turvo se tornar conheci­do nacionalmente pela excelência no ensino”, afirma o prefeito da cidade, Ronaldo Marotta de Souza.

Uma excelência que, como destaca Geraldo, já se reflete no IDEB, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. A prova – realizada de dois em dois anos – deixa clara a evolução da Escola Terezinha Pereira.

“Em 2007, o índice da escola era 4. Em 2013, chegou a 5,6 – o que representou um enorme avanço. Estamos confiantes de que o resultado de 2015, ainda não divulgado, seja ainda melhor”, afirma Guingo.

Segundo o professor, outro resultado expressivo foi o ENEM 2014, que teve números divulgados por escola no final de 2015.

“A Escola Estadual Terezinha Pereira ficou em primeiro lugar em matemática entre todas as escolas públicas não seletivas do Brasil”, comemora.

 

Em outra avaliação externa, do governo de Minas, a escola tam­bém apresenta números acima da média. Em 2005, apenas 12% dos alunos estavam no nível recomendado para o aprendizado de matemática. No ano passado, o quadro se inverteu completamente. Somente 17% tinham um índice considerado insuficiente.

“Esse sucesso vai gerar novos talentos. Os filhos dos nossos alu­nos vão entrar na escola já pensando em superar os pais. E graças à OBMEP, os jovens de Dores do Turvo conseguem ir muito mais lon­ge do que sonhavam os estudantes de 15, 20 anos atrás”, observa o professor.

“ESSE SUCESSO VAI GERAR NOVOS TALENTOS. OS FILHOS DOS NOSSOS ALUNOS VÃO ENTRAR NA ESCOLA JÁ PENSANDO EM SUPERAR OS PAIS”

Geraldo sabe do que está falando. Apesar da formação em matemática, ele perdeu as contas do número de alunos que passa- ram por sua sala de aula, em 34 anos de magistério. O cardiologista, a dentista, o dono da mercearia, os colegas na Escola Estadual Terezinha Pereira…

“Talvez seja essa uma das diferenças mais importantes entre uma escola pública de uma cidade pequena e de uma metrópole. Aqui, você dá aula para seu filho, seu sobrinho, o filho do vizinho, do colega de trabalho. O comprometimento é muito maior. Na cidade grande, muitas vezes, o professor gostaria de ter esse envolvimen­to, mas o ritmo é diferente. Ele perde tempo no trânsito, tem de dar aulas em mais de uma escola… Nosso tempo é especial e isso se re­flete na qualidade do ensino”, diz.

Um tempo que, às vésperas da OBMEP, costuma se multiplicar por mil. Para preparar o time de Dores do Turvo, os professores da Terezinha Pereira (todos ex-alunos de Guingo) se desdobram em aulas extras e atividades além do tempo regulamentar. Como bons mosqueteiros do ensino, têm o “um por todos, todos por um” como mantra.

“FIQUEI FASCINADO PELO MAGISTÉRIO. MESMO COM TODAS AS DIFICULDADES DA CARREIRA, DESCOBRI ALI O QUE EU QUERIA FAZER PELO RESTO DA VIDA”

 “O que diferencia Dores do Turvo é o trabalho do dia a dia. Os alunos se esforçam porque sabem o sacrifício que fazemos ao vir à escola fora do horário ou no dia de folga e que os professores es­tão ali para garantir que eles tenham um futuro melhor. E nos dão esse retorno maravilhoso”, diz o professor.

O sucesso nem de longe subiu à cabeça de Geraldo. Ele faz ques­tão de dividir os louros com toda a equipe da escola e afirma que só usa a braçadeira de capitão por ser o mais velho. Conta que a matemática surgiu em sua vida quase que por acaso: na falta de op­ções na faculdade local, escolheu o curso que juntava a disciplina, mais física e química. Pensava em fazer dessa primeira experiên-cia um trampolim para uma universidade federal. Mas foi parar numa sala de aula. E aí a história mudou de rumo.

“Fiquei fascinado pelo magistério. Mesmo com todas as dificul­dades da carreira, descobri ali o que eu queria fazer pelo resto da vida. A sala de aula me conquistou”, lembra.

Conquistou e recompensou. Um dos professores mais premiados da OBMEP, Geraldo recebeu o troféu Fernando de Azevedo – Educador do Ano 2013, concedido pela Academia Brasileira de Educação e foi condecorado com a maior honraria concedida pelo governo de Minas Gerais, a Medalha da Inconfidência. Mais um go­laço da pequena Dores do Turvo.

“O trabalho que o professor Geraldo desenvolve é um exemplo para nossa cidade, para Minas e para o Brasil todo”, orgulha-se a diretora da Terezinha Pereira, Ângela Maria Pereira Campos. “Os alunos daqui têm um índice de aprovação muito grande nas escolas técnicas da região e, depois, nas universidades públicas. O Geraldo é um multiplicador”, define.

E não apenas no ensino da matemática. Inspirado pelo ex-mes­tre e hoje colega de trabalho, o professor de geografia Giovani José da Silva resolveu participar de outro concurso nacional: a Olimpía­da Brasileira de Astronomia e Astronáutica. Na última disputa, Do­res do Turvo teve seis medalhistas, um deles de ouro.

“O ensino de matemática provoca melhorias em todas as outras áreas do conhecimento”, garante Geraldo.

“Geraldo apresenta um trabalho ímpar em educação, se pensar­mos na realidade do nosso país. Está permitindo aos jovens de Do­res do Turvo almejar um futuro muito melhor”, completa Giovani.

E que ninguém pense que Geraldo e seus colegas da Terezinha Pereira tratam a escola como uma simples linha de montagem de campeões de matemática. Para eles, o que mais importa é a forma­ção de cidadãos.

“Não acredito em escola celeiro de talentos. Por esse Brasil enorme, existem milhares de meninos e meninas com aptidão para essa ou aquela disciplina, que só precisam de uma oportunidade. Nossa missão é essa: abrir a cabeça deles para um mundo maior. Mostrar que independentemente da origem, da cor, da classe social, todos podem ir mais longe. É só ter determinação”, diz.

No caso de Dores do Turvo, a fórmula virou até slogan: “a trilha do ouro da matemática” é a nova frase-símbolo da cidade.

Um capítulo marcante da história de muitos jovens

Ônibus na porta, wi-fi gratuito, tablets e computadores… As facili­dades com que contam os estudantes de algumas grandes cidades parecem cenas de novela no dia a dia de jovens como Dávila de Car­valho Meireles, de 15 anos, da Escola Estadual Terezinha Pereira, em Dores do Turvo. A garota mora a 50 quilômetros do centro da cidade e sacoleja uma hora e meia num ônibus malconservado para chegar ao colégio. Nada que a impeça de ser uma das campeãs da OBMEP. Em 2012, teve o segundo melhor resultado do país.

“Tenho facilidade com números”, diz a modesta medalhista, que vive com o pai pedreiro e a mãe lavradora em um pequeno sítio na zona rural de Dores do Turvo. “Mas a OBMEP já mudou a minha vida. Vou fazer faculdade”, sonha a menina, que, embora ainda não tenha escolhido um curso, sabe que será algo “relacionado à mate­mática”.

Dávila pretende seguir o caminho da conterrânea Tarcilene He­leno, uma das primeiras alunas da Terezinha Pereira a participar da Olimpíada. Graduada em Física pela Universidade Federal de Juiz de Fora, ela faz doutorado em Acústica e Vibrações na Coppe-UFRJ.

“Geraldo ensina muito mais do que matemática. Ele sempre este­ve presente nas nossas vidas, nos aconselhando e acompanhando, mesmo de longe. Tenho muito orgulho de ter sido aluna dele”, diz.

Segundo o professor, nada incentiva mais do que o sucesso de um aluno. E, naturalmente, os ex-olímpicos de Dores do Turvo gos­tam de voltar à cidade para contar suas experiências e estimular a garotada a participar da Olimpíada. Muitos também oferecem prê­mios: celulares, tablets, máquinas fotográficas, aparelhos de MP3 e camisas de times de futebol.

“Para ganhar, tem que se dedicar”, observa Geraldo.

A dedicação inclui cumprir mais um turno de até cinco horas de estudos de matemática após a grade normal de aulas. Neste perío­do extra, os alunos trabalham com material fornecido pela própria OBMEP, sobretudo o Banco de Questões.

“Ninguém vem aqui para decorar fórmulas. Desenvolver o ra­ciocínio lógico é a nossa tarefa”, diz.

Quem consegue sobe degraus mais rapidamente. Filipe Jessé de Castro Arruda, de 15 anos, morador da zona rural, ganhou uma me­dalha de ouro na Olimpíada e, graças ao reforço no estudo, passou no concurso para uma prestigiada escola técnica em Juiz de Fora. “Sem a matemática, não teria sido possível”, afirma o garoto.

“NOSSA MISSÃO AQUI É ESSA: ABRIR A CABEÇA DELES PARA UM MUNDO MAIOR”

 A lista de premiados não só aumenta como muda quase todos os anos. “Os alunos querem sempre superar os veteranos. E quem está no pódio não quer sair de lá. Então, todos estudam com deter­minação e vão para as provas superestimulados. Mas é uma disputa saudável, todos se ajudam”, diz Guingo.

“Graças ao trabalho dos professores da Terezinha Pereira, mi­nha vida mudou”, afirma Fernando Moreira Ribeiro, mestrando em engenharia elétrica na Universidade Federal de Minas Gerais. O se­gredo, talvez, esteja nesse jeitinho mineiro de mostrar a meninos e meninas que a matemática não é um bicho-papão.

“A maneira como ele ensina matemática me fez perceber a apti­dão que eu tinha para a área de exatas. Foi fundamental para eu escolher a engenharia de produção”, conta outra ex-aluna da Terezi­nha Pereira, Daniella Marotta, hoje aluna da Universidade Federal de Juiz de Fora.

A história de Fernando é emblemática. Ele conquistou a primei­ra menção honrosa da escola na OBMEP, em 2005. Acertou as vinte questões da 1ª fase. Com o talento para a matemática revelado ali, não teve dificuldades em entrar para a UFMG. Em 2012, ao se gra­duar em engenharia, foi novamente premiado. Desta vez, pela pró­pria universidade, como o melhor aluno entre os formandos.

“A OBMEP é um capítulo marcante na minha história. Como um garoto da zona rural de uma cidade pequena chegaria tão longe?”, indaga o rapaz.

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