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5 de fevereiro de 2018, 11:06h

História inspiradora: Antônio Cardoso do Amaral, Cocal dos Alves (PI)

Números nunca foram a paixão do piauiense Antônio Cardoso do Amaral, de 34 anos. Na escola, seu coração batia mais forte por ciências e língua portuguesa. Mas, no raciocínio lógico, ele sempre foi craque. Tanto que, na hora de decidir que carreira seguir, deixou de lado o coração e se valeu de uma fórmula simples: mais demanda é igual a mais oportunidades de trabalho. E foi assim que o jovem foi estudar matemática. Antes mesmo de se formar, já dava aulas. O resultado? Bem, Cocal dos Alves, um lugarejo de cinco mil habitantes no sertão do Piauí, é a prova real de que, às vezes, o amor demora a acontecer, mas quando acontece… A cidade acumula centenas de premiações na OBMEP. Um resulta-do impressionante para um município com um dos 50 mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e onde cerca de 95% da população vive do Bolsa-Família.

“A OBMEP SALVOU A MINHA VIDA COMO PROFESSOR. SEM ELA, EU TERIA DESISTIDO DA SALA DE AULA”

“Estamos ganhando essa luta com exemplos. Hoje, mais de 70% dos alunos de Cocal dos Alves que fazem o Enem conseguem vaga na Universidade Federal do Piauí ou na estadual. Temos jovens cur­sando medicina, engenharia, nutrição, matemática, entre outros cursos. Sem a OBMEP, isso seria impensável”, afirma Antônio, pro­fessor da Unidade Escolar Augustinho Brandão.

A própria trajetória do professor beira o impensável. Os pais são analfabetos. Ou quase. “Minha mãe lê um pouquinho”, diz ele. A família morava na zona rural. Escola, só até a 4ª série do Ensino Fundamental e, mesmo assim, em turmas multisseriadas. Chegar ao Ensino Médio seria um “esforço gigantesco”, mas o pai arrumou emprego em uma serralheria e, Antônio foi estudar em um colégio filantrópico. Quem podia pagava a taxa de manutenção. E o menino conseguiu se formar e sonhar com a universidade. Em Parnaíba, onde ficava o campus mais próximo da Universidade Estadual, as opções eram pedagogia, matemática e educação física.

“Escolhi matemática porque sabia que havia carência de profes­sores. Mas entrei na universidade sem base nenhuma”, conta.

Embora dar aulas não fosse seu objetivo, Antônio enxergou a oportunidade. Formado e de volta à Cocal dos Alves, descobriu a OBMEP. Ali, finalmente, encontrou uma razão para mudar sua vida e a de seus alunos.

“A OBMEP salvou a minha vida como professor. Sem ela, eu teria desistido da sala de aula. Não conseguia entender como um aluno é diferente do outro e fazia uma cobrança excessiva, sem contraparti­da nenhuma para eles. Com a olimpíada, percebi como a matemáti­ca é bonita, me encantei com a disciplina. Talvez, já tivesse algum jeito para os números na infância, mas faltou incentivo.”

Na época, Antônio cogitou prestar concurso público para algum banco e fazer carreira em um caixa ou escritório. Agora, do outro lado do balcão, o professor se esmera em estimular a garotada. Gos­ta de trabalhar com os “bem novinhos”, ou seja, os do 6º ano do Ensino Fundamental, para despertar o interesse pela matéria des­de cedo. E sem grandes arroubos. Antônio faz questão de dizer que não inventa a roda em sala de aula: apenas mostra a importância que a disciplina tem no cotidiano – e como ela pode ser transforma­dora na vida de um jovem.

“Não tem segredo nem técnica de ensino mirabolante. As crian­ças entendem que, se querem ter um futuro diferente, só têm uma alternativa: estudar.”

“A DISCIPLINA PARA ESTUDAR MATEMÁTICA SE REFLETE NO ENSINO COMO UM TODO”

E não só matemática. Os alunos da escola fazem todas as olim­píadas que aparecem pela frente, sempre com bons resultados. Foi da Augustinho Brandão que saiu Izael Francisco de Araújo, cam­peão do “Soletrando”, o quadro do programa “Caldeirão do Huck”, em 2011. Hoje, o rapaz estuda medicina na Universidade Estadual do Piauí.

“Os alunos de Cocal dos Alves fazem olimpíada de química, de física, de robótica, de português, de tudo o que aparece! A disciplina para estudar matemática se reflete no ensino como um todo. Nos­sos resultados na Prova Brasil são surpreendentes”, orgulha-se o professor.

Para cada aluno, o exemplo pode estar na carteira ao lado. Antô­nio adora contar histórias como a de João Francisco Rocha Filho, um aluno acima da média, de origem muito humilde, que sonhava em estudar Engenharia Civil, mas nem sequer tinha luz em casa.

“A família só teve energia quando chegou aqui o projeto Luz para Todos. Mas João estudou e acreditou. Hoje, faz engenharia na Universidade Estadual do Piauí. Ver um menino como ele na facul­dade é o melhor prêmio que um professor pode querer.”

Pensando assim, Antônio foi premiadíssimo. Em 2005, quando participou pela primeira vez da OBMEP, emplacou 25 classificados na fase final – levou 17 prêmios, entre medalhas e menções honro­sas. Animado com o resultado, passou a se dedicar ainda mais e a acumular conquistas olímpicas.

“É tudo muito simples. O professor precisa tentar conhecer ao máximo cada aluno para extrair dele o melhor. Quando estabelecemos essa relação, o processo flui naturalmente.”

Ele é pai de gêmeos, ambos excelentes alunos de matemática. E que ninguém se engane: o carinho com os jovens e o jeito informal de dar aulas não se confundem com liberalismo.

“Sou rígido com eles. Disciplina é fundamental, e eles pre­cisam entender que será assim a vida toda. Mas não trato co-mo imposição. Faço a garotada compreender que cobranças fazem sentido e que a hora de errar é na escola. Depois, o mun­do toma outro caminho e eles não terão mais os professores para passar a mão na cabeça”, diz o professor.

Até lá, porém, os meninos de Cocal dos Alves contam com privilégios dignos das boas escolas particulares da capital. Têm dois laboratórios, biblioteca, quadra, transporte esco-lar, três refeições e uniforme completo, em horário integral. Estão em um dos três melhores colé­gios estaduais no Enem. E disputam fervorosamente as medalhas da OBMEP a fim de garan­tir a sonhada vaga no Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC).

“Na nossa cidade, os R$ 100 da bolsa do PIC fazem muita diferença. Para muitos, será a fronteira entre passar a vida na roça ou conquistar um futuro melhor”, compara Antônio.

O mestre de Cocal dos Alves sonha com a pos­sibilidade de seus ex-alunos e alunos de­volverem à cidade a oportunidade que lhe foi e está sendo dada:

“Seria ótimo se alguns resol­vessem ser políticos, porque eles sabem o verdadeiro valor da educação e trabalhariam para melhorar o ensino no país.”

Antônio, porém, nem pensa em uma carreira política. Ló­gico que o prestígio da escola atrai olhares, mas a intenção dele é outra:

“Meu negócio é dar aula. É só o que sei fazer.”

 “OS R$ 100 DA BOLSA DO PIC FAZEM MUITA DIFERENÇA. PARA MUITOS, SERÁ A FRONTEIRA ENTRE PASSAR A VIDA NA ROÇA OU CONQUISTAR UM FUTURO MELHOR”

DA LAVOURA PARA A UNIVERSIDADE

Se uma única palavra servisse para representar o sucesso na OB­MEP dos alunos da Unidade Escolar Augustinho Brandão prova­velmente seria superação. Não é para menos. Nascidos em um dos municípios mais pobres do Piauí, muitos na zona rural, o horizonte deles parecia limitado a tomar um ônibus rumo a uma cidade gran­de, em busca de um emprego em casa de família ou na construção civil. Mas a matemática somou novas possibilidades a esse cotidia­no. Contrariando um dos princípios básicos das ciências exatas, neste caso, a soma dos fatores alterou o produto.

“Se não fosse a OBMEP, eu teria estudado até o 7º ano do Ensi­no Fundamental e viajado para arrumar trabalho em um grande centro urbano, como fizeram tantos parentes, amigos e conheci­dos”, observa Jean Carlos Souza de Brito, ex-aluno da Augustinho Brandão.

Filho de lavradores e morador de um povoado chamado Cha­fariz, Jean Carlos ganhou cinco medalhas olímpicas: duas pratas, dois bronzes e um ouro. Antes da matemática, trabalhava de ma­nhã e ia para a escola à tarde. Como ganhou bolsa de iniciação científica, pôde se dedicar integralmente aos estudos.

“Sempre gostei de matemática, mas não sabia que tinha poten­cial. Foi o professor Antônio Amaral que enxergou essa habilidade em mim. Minha vida mudou”, orgulha-se o rapaz.

Para Sandoel de Brito Vieira, o talento para os números não apenas abriu novas possibilidades como lhe garantiu uma vaga na Universidade Federal do Piauí, justamente na Faculdade de Mate­mática, e, depois no Doutorado do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Filho de um trabalhador autônomo e uma dona de casa, teve uma menção honrosa, dois bronzes e três ouros na OBMEP.

“Antes de começar a disputar as olimpíadas, tratava a matemá­tica como outra matéria qualquer. Mas o professor Amaral apre­sentava o assunto quase como uma brincadeira e não como mais uma enfadonha disciplina da grade escolar. Os encontros de estu­do na casa dele eram espontâneos, o que tirava o peso da obriga­ção. Curiosamente, foi isso o que fez com que essas reuniões se tornassem tão produtivas e rendessem tanto sucesso na OBMEP. Hoje, somos amigos do professor e não só ex-alunos.”

Sandoel seguiu na matemática, mas Marilene Magalhães de Bri­to preferiu nutrição, também na Federal do Piauí. Na OBMEP, a filha de agricultores conquistou uma prata e dois bronzes.

“A olimpíada mudou a minha forma de acreditar no futuro: en­tendi que é possível conseguir o que se deseja estudando. Sem falar que foi uma contribuição enorme no meu crescimento acadêmico e pessoal. Estudei com o Antônio no 3º ano do Ensino Fundamental e, depois, do 6º ano até o 3º do Ensino Médio. Ele sempre foi um gran­de incentivador.”

O futuro engenheiro Fernando Vieira, também aluno da UFPI, é outro que só guarda boas recordações dos tempos de escola. Parti­cipou das seis primeiras edições da OBMEP e levou três bronzes, duas pratas e um ouro. Curiosamente, lá no começo, ele nem era assim tão fã do professor Amaral.

“Nossa relação era mais de professor e aluno, mas com o tempo, foi mudando. Hoje, somos amigos bem próximos. Ele foi quase um pai para mim. Eu era bom com números, mas só despontei mesmo com as olimpíadas. Tudo que tenho na vida devo à OBMEP e ao Amaral”, afirma o jovem.

O futuro matemático Francimar de Brito Vieira concorda. Ele começou a participar das olimpíadas em 2007, ganhando já uma menção honrosa. Animado, redobrou os estudos e acumulou meda­lhas: bronze em 2008 e 2009, prata em 2010, novo bronze em 2011, até o sonhado ouro em 2012.

“A OBMEP me fez acordar para a vida. Eu não tinha o objetivo de ingressar na universidade. Mas depois da primeira olimpíada, vi que a coisa era boa para mim e comecei a me dedicar mais aos estu­dos. Vieram as premiações, o Programa de Iniciação Científica e as bolsas de estudos. Minha mente se abriu para novas ideias e perce­bi que meu futuro estava nos estudos. Nada disso seria possível sem o professor. Não importava se era dia letivo, sábado ou domin­go – sempre que podia, ele marcava aula com quem ia participar da 2ª fase da olimpíada.”

O empenho de Amaral também pavimentou o caminho de Ro­dolfo Vieira Fontenele, aluno de medicina na UFPI. Filho de uma dona de casa e um pedreiro, guarda com carinho as quatro meda­lhas de bronze, uma de prata e uma de ouro, conquistadas na OB­MEP. Rodolfo confessa que nem tinha assim tanta afinidade com a matemática, e que foi com o tempo que descobriu “o quão mágico” poderia ser trabalhar com os números. E, a partir daí, seu desempe­nho geral nos estudos mudou.

“A experiência com o estudo intensivo da matemática, em um processo constante de desenvolvimento do raciocínio lógico, foi decisiva para eu conseguir sozinho me preparar para os vestibula­res. Se não fossem aquelas horinhas especiais de estudo que des­tinei desde a 6ª série para as provas da OBMEP, muito possivel­mente eu não teria chegado onde estou hoje”, reconhece.

Para Rodolfo, os resultados de Cocal dos Alves podem ser com­parados a uma oficina de artesanato, onde, além da matéria-pri­ma e das ferramentas, é preciso ter um artesão. Segundo o estu­dante de medicina, esse foi o papel maior de Antônio Amaral: revolucionar a relação professor-aluno em Cocal dos Alves. O ra­paz lembra que, no começo da OBMEP, a maior dificuldade era o transporte e a alimentação dos estudantes. Ele mesmo morava a 13 quilômetros da escola onde aconteciam as aulas preparatórias e não conseguia voltar para casa para almoçar:

“O professor nos levava para almoçar e descansar na casa dele, sem ganhar absolutamente nada em troca. Era impressionante a fé que tinha em nós. Desde 2005 é assim: o empenho dele é cons­tante, acreditando sempre na possibilidade de encontrar novos talentos. Eu poderia escrever cem páginas descrevendo como esse professor foi fundamental para as nossas vidas. Serei eternamen­te grato por ele ter batalhado para que nos destacássemos entre milhões de alunos de todo o país, mesmo em condições tão adver­sas”, agradece o futuro médico.