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27 de fevereiro de 2019, 13:00h

Há mais Matemática em Shakespeare do que se pensava

Pode um dos maiores mestres da dramaturgia mundial, como William Shakespeare (1564-1616), ter sido influenciado pela Matemática em suas obras? A resposta é: provavelmente!
Está certo que cada um de nós lê, compreende e aprecia Shakespeare através de nossos próprios filtros, mas, ao longo dos séculos, as obras do bardo têm sido dissecadas por especialistas em literatura e teatro, além de pesquisadores de outras áreas do conhecimento. 
Não à toa advogados e médicos logo identificaram passagens que exibem conhecimentos arcanos de direito e medicina. Geógrafos mencionam detalhes geográficos adquiridos, possivelmente, em viagens pela Europa. Entretanto, um campo pouco estudado das obras de Shakespeare é a que indica seu saber matemático. 

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Um dos estudos mais notórios sobre o tema mostra como os poemas do escritor britânico tinham a curiosa tendência a ter 14 linhas, seguidas do pentâmetro iâmbico sempre ritmado em sequências numéricas (1-2, 1-2, 3-4, 3-4, 5-6, 5-6, 7 e 7). O que demonstra que, além de grande conhecer da língua inglesa – ele empregou 28.829 palavras diferentes em suas obras e tinha um vocabulário de cerca de 100 mil palavras, considerado o maior de todos os tempos –, usava a seu favor o poder nos números para rimar os sonetos. Mas isso é outra história.
O foco aqui é o estudo do matemático Sam C. Saunders, professor aposentado de Matemática Aplicada da Universidade do Estado de Washington e do Laboratório de Pesquisa da Boeing, atual Shakespeare Oxford Fellowship. O especialista esmiúça um trecho de “Hamlet” em que fica evidente o conhecimento do autor sobre probabilidade.
É importante relembrar que Shakespeare foi contemporâneo do matemático Galileu Galilei – nasceram no mesmo ano. Muitas de suas obras citam fatos astronômicos e matemáticos da época, demonstrando interesse pelos temas.
Passada na Dinamarca, a peça “Hamlet” conta como o príncipe Hamlet tenta vingar a morte do pai, envenenado por Cláudio (irmão do rei e tio de Hamlet). Cláudio assumiu o trono, casando-se com a rainha Gertrudes. A peça aborda a loucura real e a loucura fingida e explora temas como traição, vingança, incesto, corrupção e moralidade.
A pesquisa de Saunders trata da parte do Ato 5, cena 2, em que Cláudio, no esforço para eliminar Hamlet em duelo com Laertes, envia Osrico para avisar o sobrinho sobre o duelo e as probabilidades de vitória. Saunders mostra que Shakespeare se valeu, na cena, de conhecimentos sobre probabilidade.

HAMLET: (…) seis cavalos berberes contra seis espadas francesas, seus acessórios e três talabartes de concepção luxuriosa. Essa a aposta francesa contra a dinamarquesa. E com que fito se exigiu tudo isso, como dizes? 

OSRICO: O Rei, senhor, apostou que, numa dúzia de passes entre o senhor e Laertes, este não levará vantagem de mais do que três toques. Laertes impôs como condição que os assaltos então sejam doze e não nove: e a disputa será imediata, assim que Vossa Senhoria nos consignar sua resposta. 

HAMLET: (…) Mandem trazer os floretes, caso o cavalheiro concordar e o Rei permanecer em seu propósito; eu vencerei por ele, se puder; se não puder, ganharei apenas a vergonha e as estocadas a mais.

O matemático se debruçou sobre três importantes detalhes: a compreensão das regras do duelo relatadas na peça, as regras dos duelos de esgrima da época e o conhecimento probabilístico do período ao qual Shakespeare teria conhecimento.
Juntando tudo isso, conseguiu comprovar que a teoria do diálogo entre Hamlet e Osrico é possível. Sem saber, o príncipe da Dinamarca iria ao duelo para morrer conforme os planos do rei Cláudio. Só não contava com o fator de que, na ficção, o improvável pode acontecer. E para não dar spoiler, paramos por aqui.
O importante é que Saunders estabelece que Shakespeare acertou na charada probabilística que tanto intrigou estudiosos de sua obra. Tudo porque o Bardo conhecia o mecanismo dos duelos de esgrima e entendia bem do trabalho do matemático Girolamo Cardano (1501-1576) sobre o assunto. 

Para ler o estudo completo, clique aqui.

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