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4 de dezembro de 2017, 09:51h

Estudo de Harvard mostra efeito positivo da OBMEP nas escolas

Reprodução coluna de Antônio Gois, no Globo

No mês passado, mais de 7 mil alunos foram premiados com medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Esta é a 13 edição da competição, que envolve milhões de alunos e tem revelado talentos, às vezes em locais improváveis, numa área em que o país apresenta resultados pífios. Principalmente por envolver recursos públicos em sua realização, sempre se questionou qual o impacto da iniciativa no aprendizado dos estudantes. Alguns estudos já indicavam que escolas onde há mais mobilização para participação na Obmep apresentam ganhos no aprendizado em matemática medido em testes oficiais do MEC. Um novo estudo mostra que o efeito de ser premiado na competição beneficia não apenas o ganhador, mas também seus colegas de turma.

Esta conclusão encontra-se na tese de doutorado pela Universidade Harvard de Diana Moreira, atualmente Professora na Universidade da Califórnia, Davis. Como apenas os alunos premiados têm seus resultados anunciados (não há divulgação pública das notas de todos os alunos), o estudo conseguiu identificar turmas em que um aluno foi premiado e comparou-as a outras turmas em que, apesar de ninguém ter sido premiado, havia ao menos um estudante com desempenho praticamente idêntico, mas que, por muitos poucos pontos, terminou sem prêmio. As notas desses dois estudantes são tão próximas que, do ponto de vista estatístico, não é possível afirmar que um seja melhor do que o outro. Diana Moreira procurou também considerar outras variáveis na comparação, para ter certeza de que o perfil dos alunos das turmas era semelhante.

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Após esse procedimento que restringiu a comparação a turmas que eram antes do prêmio muito semelhantes, o estudo calculou a participação de alunos em edições seguintes na Obmep, o desempenho na competição e também o ingresso posterior em universidades. Os resultados mostram que, tanto para os ganhadores quanto para seus colegas de turma, a participação na Obmep e o desempenho aumentam significativamente. Talvez ainda mais importante, ao continuar acompanhando a trajetória desses alunos na transição do ensino médio para o superior, Diana identificou que a probabilidade de um ganhador ingressar num curso superior mais concorrido era 17% superior em relação ao aluno de igual desempenho não premiado. Para os colegas de turma, essa probabilidade aumentou em 10%, na comparação com os alunos da outra classe, onde não havia premiado.

Para identificar os mecanismos que causam esse resultado seriam necessários estudos mais aprofundados. Uma hipótese levantada por Diana com base no grupo de alunos que tiveram melhora mais expressiva de desempenho é que, ao ver colegas de classe sendo reconhecidos pelo resultado em matemática, os alunos ao redor desse estudante se sentem também capazes e motivados para estudar mais.

Por mais alvissareiros que sejam esse e outros estudos já publicados sobre a Obmep, seria obviamente ingênuo imaginar que uma competição, por mais abrangente, fosse suficiente para melhorar significativamente o aprendizado de matemática no país, algo que nunca foi objetivo da Olimpíada. Os dados das avaliações do MEC, tabulados pelo movimento Todos Pela Educação, indicam que apenas 7% dos alunos terminam o ensino médio com nível de aprendizado considerado adequado. A Obmep tem dado sua contribuição, mas não há atalhos na construção de políticas públicas que garantam um ensino de qualidade para todos.