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6 de junho de 2017, 16:50h

Escola rural de Minas brilha na OBMEP e atrai alunos da cidade

Com estratégias lúdicas, diálogo e dedicação, Cleir Oliveira motiva estudantes e melhora desempenho em Matemática

A pausa para o almoço dura 15 minutos. E o que a professora Cleir Rodrigues de Oliveira faz antes e depois disso é, basicamente, Matemática: oito horas de aula por dia, de segunda à sexta-feira, em duas escolas públicas da zona rural de Inhapim, em Minas Gerais. Após dois turnos em sala de aula, ela vai para casa no fim da tarde e lá ainda encontra quatro estudantes à espera. Miguel Victor, 5 anos, o caçula, invariavelmente, lança alguma pergunta envolvendo números: “Mãe, quanto é 10 mais 10 mais 10 mais 10 mais 10?”

Miguel Victor, assim como os irmãos Waldir José, 12; Agnes Gabriela, 14; e Alef Gabriel, 17, têm grande afinidade com a Matemática. E, filhos de quem são, seria mesmo difícil nutrir aversão por essa área do conhecimento. Cleir é uma apaixonada pelo assunto e não exagera quando diz que “sempre quis ser professora.” Começou meninota ainda, dando aulas de reforço, e se profissionalizou aos 20 anos. Além do magistério, é formada em Matemática.

Em junho, Cleir completa 23 anos de profissão. E, ao refletir sobre essa longa trajetória, destaca o sentimento de felicidade que a invade sempre que vê algum aluno ter um bom desempenho em Matemática. “É uma recompensa muito grande”, diz a mineira.

Os resultados dos seus 101 alunos na OBMEP, sem dúvida, são de causar contentamento. Em 2016, a Escola Estadual Querobino Marques de Oliveira – onde leciona no período da manhã para turmas do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental – conquistou duas medalhas de ouro, uma de prata e uma menção honrosa.  Em 2015, garantira uma prata, um bronze e uma menção honrosa. E nas edições de 2011 a 2014, fora premiada com, pelo menos, uma menção honrosa.

O destaque da escola, situada em Vila Marques, na região do Vale do Rio Doce, é um feito. São 101 alunos em apenas quatro salas de aula, distribuídas em uma modesta infraestrutura de três pequenos pavimentos. Espaço para aula de Educação Física não há, é preciso contar com uma quadra da comunidade da região.

Total de matrículas cresceu 20%

Os resultados obtidos na OBMEP provocaram uma inversão no movimento dos estudantes, que, em geral, buscam as unidades de ensino da zona urbana, mais estruturadas. Nem mesmo os cerca de dez quilômetros de estrada da cidade até a zona rural e o difícil acesso aos sinais de celular e de internet foram um impedimento para o aumento da procura. O total de matrículas na Querobino cresceu 20%, e só não foi possível ir além porque as instalações, modestas, impedem uma ampliação ainda maior no número de alunos.

Cleir, que nos dois últimos dois anos foi premiada pela OBMEP por sua atuação, divide os louros dos resultados obtidos em um cenário de tantas adversidades. “A escola toda ajuda muito. As questões da OBMEP vão além do cálculo em si e requerem interpretação. O professor de Português, então, faz a diferença, assim como todos os outros, pois trabalhamos a Matemática de forma multidisciplinar.”

Há, de fato, um trabalho conjunto pela melhoria do ensino da Matemática na escola, confirma a diretora da Querobino, Ângela Aparecida Barbosa Nunes. Tanto é que, em 2016, a instituição foi premiada pela OBMEP. “O incentivo é de todos. E, com o passar do tempo, estamos evoluindo”, destaca, citando que a escola fica à disposição dos estudantes no contraturno, para quem deseja se aprofundar na disciplina. Em geral, é lá que os alunos conseguem acesso à internet, difícil na região.

Apesar de o esforço ser conjunto, Ângela, há quatro anos na direção da Querobino, sabe bem o valor de Cleir: “Ela se preocupa em tornar a Matemática simples e acessível, mas não abre mão da qualidade e do esforço que a matéria exige. É uma professora que se cobra muito e cobra muito dos alunos. Mas, ao mesmo tempo, mantém uma ótima relação com eles, explica bem e sabe lidar com os que têm dificuldades com o conteúdo”, define.

Medalha de prata na OBMEP em 2015, Mariana Augusta de Oliveira Maciel, aluna do 9º ano, corrobora: “Ela é muito atenciosa, gosta de nos incentivar e tem muita paciência para explicar a matéria”, diz ela, que gosta tanto da forma como Cleir desempenha seu trabalho que decidiu tentar seguir seus passos. “Quero ser professora de Matemática.”

Educação faz diferença sempre

Ao falar de si e de sua contribuição para o destaque alcançado pela escola, Cleir avalia ser importante contextualizar o currículo escolar, mostrando como a Matemática está inserida em nosso cotidiano, e lançar mão de estratégias lúdicas para abordar determinados conteúdos.  Além disso, acredita ser importante manter uma relação de proximidade com os alunos.

“Às vezes, o professor de Matemática costuma ser muito seco, muito frio. Procuro ser diferente. A Matemática já tem essa fama de ser muito difícil. Então, se o aluno tomar antipatia do professor, complica. Gosto muito de conversar com eles, saber do dia a dia, dos problemas familiares, que acabam interferindo muito na aprendizagem.”

O diálogo é importante. Tanto com os alunos que, como Mariana, têm predileção pela Matemática e ótimo desempenho, como com aqueles com parcos conhecimentos na matéria, “que não sabem nem o básico, como as operações de adição e subtração”, diz Cleir. E embora haja um trabalho específico para os estudantes de 6º ano que ingressam com atraso no conteúdo, o caminho é um só para todos: motivá-los. “Se o aluno vê o amor do professor pela matéria, a aula é interessante, ele vai ter interesse em aprender. Ainda que tenha dificuldade, ele vai tentar”, avalia.

Apoio das famílias

Para tentar vencer as dificuldades, Cleir considera que a colaboração das famílias é fundamental. Em casa, ela faz questão de que a educação seja prioridade. E, apesar do cansaço com a rotina puxada ao longo da semana, dá um jeito de sentar com os filhos para estudar. Ultimamente, tem se deixado contagiar pelo entusiasmo do mais velho, Alef Gabriel, medalhista de prata da OBMEP em 2015, que só pensa em repetir o feito na edição deste ano: “Educação faz diferença sempre. Principalmente para que quem não tem uma condição financeira tão boa, como nós, é a única forma de ter acesso a certa dignidade e trabalhar. Sem ela, fica tudo mais difícil.”