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15 de outubro de 2018, 17:47h

Emília e Bertha: naturalistas à frente de seu tempo

Marcos Raposo e Marco Aurélio Crozariol

Reprodução do blog do IMPA Ciência & Matemática, de O Globo, coordenado por Claudio Landim

Mês passado abordamos neste blog o significado e a importância de Museus de História Natural enquanto centros de produção de saberes sobre o ser humano e suas relações com o universo a sua volta. Aqui nós falaremos um pouco sobre duas naturalistas que estão por trás das imensas coleções zoológicas e botânicas do Museu Nacional.

Originariamente, naturalistas eram confundidos com exploradores, de tão amplos que eram seus interesses, que geralmente abarcavam desde a descoberta de novas áreas e suas riquezas até o detalhamento dessas, fossem elas meros veios de ouro, civilizações inteiras ainda desconhecidas ou animais e plantas por serem descritos. O estabelecimento de hipóteses e modelos explicativos para o mundo natural, como foi o caso da Teoria da Evolução proposta por Charles Darwin e Alfred R. Wallace, igualmente faziam parte do métier dos naturalistas.

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Por serem produtores de saber, eles tinham grande participação na evolução da civilização como um todo, não sendo incomum apresentarem estreita relação com o alto escalão e governantes de diferentes nações. Sim, governantes já se preocuparam com o Saber em sua faceta científica. O próprio Museu Nacional era um exemplo disso sendo, na época do Império, estreitamente ligado à família real, na figura de D. Pedro II, e na República quando era ligado diretamente à nossa Presidência.

Emília Snethlage (1868-1929) nasceu em Brandenburgo, ao norte de Berlim e, tendo ficado Órfã de mãe aos quatro anos, foi criada por seu pai. Assim que atingiu idade apropriada, 21 anos, optou por trabalhar como preceptora na Inglaterra, na Irlanda e na Alemanha. Nas palavras de sua futura colega Bertha Lutz, a profissão de preceptora foi uma “trilha que sufocou muitas mentes brilhantes” (vide Junghans, 2008). Isso era explicável pela má fama que acometia essas jovens solteiras na época. Aparentemente, entretanto, o espírito livre de Emília fez com que ela tirasse da situação o que ela oferecia de melhor, livre fluxo na Europa e socialização profissional em ciclos, de outra forma, somente masculinos.

Muito talentosa em zoologia e tendo sido uma das primeiras alemãs a conseguir o título de doutora (Berlim, 1904), Emília Snethlage foi trazida para o Brasil no ano seguinte pelo suíço Emílio Goeldi para impulsionar a zoologia do então Museu Paraense de História Natural e Etnografia (hoje Museu Emílio Goeldi). Chegando à direção do Museu em 1917, ela se tornou a primeira mulher a dirigir um museu científico na América Latina. Foi também a primeira mulher a descrever uma espécie de Ave brasileira e a grande precursora da nossa ornitologia. Ficou famosa também pela travessia do interflúvio dos rios Xingu e Tapajós, acompanhada somente por quatro índios e três índias curuahés, pouco antes de publicar seu maravilhoso “Catalogo das aves amazonicas”, em 1914. Extremamente determinada e inteligente, em um de seus trabalhos de campo, observando que um machucado no dedo se transformara em uma gangrena, o amputou imediatamente com um facão.
Emília foi demitida do Museu Goeldi quando, diante do corte dos salários de seus funcionários, desviou sem pestanejar para eles a comida dos animais do Zoológico sob a sua responsabilidade. Sorte do Museu Nacional para onde ela viria em 1922. Como naturalista-viajante ela continuou empreendendo excursões científicas por todo o Brasil até falecer, aos 61 anos, em Porto Velho, Rondônia.

Durante sua vida a “Vovó”, como é hoje carinhosamente chamada por ornitólogos brasileiros, encontrou muitos obstáculos ligados ao fato de estar em uma sociedade ainda misógina. Encarando a situação com humor, brincava que sabia que tinha feito um bom serviço, “um trabalho de homem”, pelo fato de receber sempre correspondências endereçadas ao Dr. Emílio Snethlage. Por outro lado, embora preferisse cabelos curtos, optava por usar longas mechas e roupas femininas, pouco adequadas ao campo, de modo a não chocar as senhoras da época, principalmente em suas viagens ao interior.

Entre 1922 e 1929, ano de sua morte, Emília conviveu no Museu Nacional com a naturalista paulista Bertha Maria Julia Lutz (1894-1976) que, embora filha do famoso sanitarista Adolfo Lutz, sempre teve luz própria. Bertha, diante do impacto das limitações que encontrou em sua volta ao Brasil, reagiu usando a sua forte capacitação teórica e penetração em altas rodas para mudar não somente o Museu Nacional, mas também a mentalidade de seu tempo. Por isso sofreu tanto ataques frontais em jornais (como os desferidos pelo escritor Afonso H. de Lima-Barreto), quanto ataques velados de colegas homens insatisfeitos não apenas com sua “impertinência” profissional quanto no que concerne à postura avançada de sua vida íntima.

Para ler o texto na íntegra acesse o site do jornal 

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