Navegar

21 de junho de 2018, 11:54h

'De que são feitas as estrelas e outras questões'

Reprodução do blog do IMPA Ciência & Matemática, publicado em O Globo, e coordenado por Claudio Landim

Sérgio Volchan, doutor em matemática, NYU

Em 1835 o filósofo francês Auguste Comte afirmou que jamais saberíamos a composição química das estrelas.  Aparentemente desconhecia que uma década antes, na vizinha Alemanha, o astrônomo Joseph Fraunhofer tinha inaugurado o estudo da espectroscopia estelar ao examinar a luz solar através de um prisma sensível que ele mesmo construiu.  Como cada elemento químico tem a sua própria “assinatura” de linhas espectrais, pode-se identificar sua presença por comparação no laboratório. Em 1859 Kirchoff já identificava a presença do elemento sódio no Sol e nas décadas seguintes vários outros elementos foram detectados.  Hoje conhecemos não apenas a composição das estrelas, sua fonte de energia (fusão nuclear) e seu ciclo de vida, mas também que somos feitos de pó de estrelas. A espectroscopia tornou-se um ramo imenso e indispensável da Física e Química experimentais, cuja base teórica se assenta na Mecânica Quântica.

Leia também: ‘Como a Matemática moldou a minha vida’
Ciclo IMPA-Serrapilheira mostra que a Matemática pode ser pop
Noite de Matemática e cerveja encher bar no Jardim Botânico

O século XIX inaugurou uma tradição de debates apaixonados sobre os limites da Ciência, que continua até hoje.  Um exemplo célebre foi a palestra ministrada em 1872 pelo fisiólogo-médico-psicólogo-filósofo alemão Emil du Bois-Reymond, intitulada “Sobre os Limites do Conhecimento da Natureza”. Nessa provocativa palestra, ele identificou  os “Sete Enigmas do Universo”:

 1.    A natureza da matéria e das forças;
 2.    A origem do movimento;
 3.    A origem da vida;
 4.    O arranjo (aparentemente preordenado) do mundo natural;
 5.    A origem das sensações  e da consciência;
 6.    O pensamento racional e a origem da faculdade associada, a fala;
 7.    A questão do livre arbítrio.

Para ele, 1, 2 e 5 eram questões “inteiramente transcendentais e insolúveis”, sobre as quais só nos resta dizer: Ignorabimus (em latim, ‘jamais saberemos’).

O que ele diria hoje? Sobre a 1 e 2 é certo que conhecemos muito mais profundamente a estrutura da matéria e as forças,  a partir das descobertas da Física Quântica e da Relatividade. É bom lembrar que a  própria existência dos átomos só foi reconhecida nos inícios do século XX!  Houve também avanços extraordinários em Astronomia e Cosmologia, verdadeiramente impensáveis naquela época.

Sobre a 3,  certamente ficaria exultante com os experimentos  de Miller e Urey de 1953, corroborando a hipótese da “sopa primordial” de Oparin e Haldane sobre as bases bioquímicas da vida. No mesmo ano Watson e Crick desvendam a dupla-hélice do ADN.   Isso sem contar todo o conhecimento adquirido sobre a estrutura celular, bioquímica, genética e evolução.  Hoje a pesquisa sobre as origens da vida é hoje uma disciplina muito ativa, com diversas hipóteses e cenários disputando um lugar ao sol.    

Para ler o texto na íntegra acesse o site do jornal 

Leia também: ICM 2018 abre inscrições para visitas de escolas
Todo ser humano nasce apto para a matemática
Blog Ciência & Matemática: Qual é o propósito da Ciência?