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28 de junho de 2018, 15:41h

'Darwin não estava errado, mas sua visão era infante'

Reprodução do blog do IMPA Ciência & Matemática, publicado em O Globo, e coordenado por Claudio Landim

Bernardo Araújo, Laboratório de Ecologia e Conservação de Populações – (UFRJ)

“Assim, é da guerra da natureza, da fome e da morte, que o objetivo mais elevado que somos capazes de conceber, a produção de animais superiores, advém”; e advém dessa forte passagem o desfecho do livro mais importante da história da biologia. Com A Origem das Espécies, Charles Darwin apresentou ao mundo o conceito da seleção natural, virando os olhos da ciência para um novo horizonte. Mas não foram apenas os olhos de cientistas aqueles tomados pelas descrições da “luta pela existência” trazidas pelo naturalista inglês. A máxima da “sobrevivência do mais forte” até hoje adiciona vermelho ao verde que a maioria das pessoas enxerga na natureza. Esse conceito preenche o imaginário popular com imagens de frágeis presas perseguidas por predadores vorazes, de feras emaranhadas em batalhas sangrentas por território. Ele dá vida a artes como as de George Bouverie Goddard e William Robinson Leigh, e nos faz crer que o mundo natural se organiza em torno de violência. A realidade, no entanto, possui muito mais cores, que se tornam nítidas sob copas que deveriam ser familiares a todos nós.

Caminhando por entre as árvores de uma floresta podemos ser enganados pelo jogo de luz e sobras sobre o solo e pelos inabaláveis pilares de madeira que nos envolvem em uma atmosfera atemporal, como se estivéssemos adentrando um templo. Mas na realidade esses ecossistemas estão em constante mudança. Árvores morrem, mudas nascem, e ao longo de décadas clareiras são preenchidas, espécies trocam de lugar, novas matas surgem, somem, se expandem e diminuem. E o que rege essa dinâmica não são relações de dentes e garras. A floresta não é um coliseu. A floresta é um grande bazar.

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No alto das copas, onde as árvores exibem flores vivas em cor e aroma, transitam abelhas, vespas, beija-flores, pequenos morcegos e vários outros animais que se encantam não pela apresentação exuberante, mas pelo que ela sinaliza. Essas pequenas criaturas se alimentam de pólen e néctar, e tiram das flores parte de seu sustento. As plantas gastam uma boa parcela de sua energia na criação dessas delícias (mais de 40% em algumas espécies), mas não para o benefício de seus visitantes. Toda vez que um animal toca uma flor para se alimentar, parte do pólen produzido por esta fica grudado em seu corpo, e é transportado para as próximas flores visitadas. Grãos de pólen são em essência gametas, e ao entrar em contato com o ovário presente nas flores vizinhas iniciam a formação de um embrião – uma semente. Dessa forma, todas as pequenas criaturas sedentas por alimento são recrutadas para um grande ritual reprodutivo. Árvores tem o benefício de um transporte que elas não podem realizar sozinhas. Em troca, os animais podem se fartar de carboidratos e proteínas necessários para sua existência. 

O ciclo prossegue. A semente agora formada está envolta por uma camada vistosa e nutritiva, que busca seduzir novos fregueses: o fruto. Aves como tucanos, jacutingas e araçaris, assim como micos, macacos-prego e bugios correm para se refestelar nos frutos que estão nos galhos. Jabutis, antas, pacas, mutuns vão atrás de frutos maduros caídos sob as plantas-mãe. Mais uma vez, ao mesmo passo que se alimentam, esses seres estão provendo um serviço importante para as árvores, pois engolem também suas futuras filhas. Caminhando e batendo asas para longe, esses animais eventualmente defecarão as sementes ingeridas. Esse deslocamento é crucial, pois sem ele as pequenas mudas se desenvolveriam próximas de suas irmãs e sua mãe. Esse acúmulo atrai predadores e doenças, sem falar que árvores da mesma espécie requerem os mesmos nutrientes do solo, fazendo a nova geração viver em constante competição com sua família imediata. Poucas jovens plântulas sobreviveriam até se tornarem árvores adultas.

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