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20 de abril de 2018, 17:00h

As crianças pediram, e Lobato escreveu 'Aritmética da Emília'

Capa da edição de 1944, ilustrada por Belmonte

Karine Rodrigues

Em 29 de agosto de 1934, um aluno da Escola Bárbara Ottoni, no Maracanã, Rio de Janeiro, escreveu para Monteiro Lobato (1882-1948) cobrando uma promessa:

“Envio-lhe esta simples cartinha para agradecer a visita à nossa escola. (…)  O senhor já escreveu os livros: “Quindim no Paiz da Matematica e Emilia no Paiz da Historia do Brasil conforme nos prometeu? Esperamos a sua visita aqui na escola, muito breve. Com muito respeito despede-se o seu admirador Murillo.”  

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Mais tarde, o próprio Lobato, em carta ao sociólogo Oliveira Viana (1883-1951), relata que, numa visita escolar, a criançada pedira um livro sobre aritmética. E observa a importância de se abordar o assunto de forma divertida:

“Vale como significação de que há caminhos novos para o ensino de matérias abstratas. Numa escola que visitei a criançada me rodeou com grandes festas e me pediram “Faça a Emília do país da Aritmética”. Esse pedido espontâneo, esse grito d’alma da criança não está indicando um caminho? O livro como o temos tortura as pobres crianças – e no entanto poderia divertí-las, como a gramática da Emília o está fazendo. Todos os livros podiam tornar-se uma pândega, uma farra infantil. A química, a física, a biologia, a geografia prestam-se imensamente porque lidam com coisas concretas. O mais difícil era a gramática e é a aritmética. Fiz a primeira e vou tentar a Segunda. O resto fica canja”, diz o texto, publicado em “Monteiro Lobato Vivo”, organizado por Cassiano Nunes e citado em “Conversas de bastidores: a correspondência entre Monteiro Lobato e seus leitores infantis”, de Raquel Afonso da Silva.

Cumpriu a promessa no ano seguinte, 1935. Em “Aritmética da Emília”, a boneca mais sagaz e peralta da literatura nacional, como de costume, nos diverte com as suas “asneirices”. Durante uma explicação do Visconde de Sabugosa sobre as medidas de comprimento, dá sua peculiar definição de metro:

“Que é o Metro? Vamos ver quem sabe. — Metro é um pedaço de pau amarelo, dividido em risquinhos, que há em todas as lojas — respondeu Emília. — Serve para medir chitas e para dar na cabeça dos fregueses que furtam carretéis de linha. — Esqueceu-se do principal, Emília. Esqueceu-se de dizer que esse pau amarelo tem sempre o mesmo comprimento. Em qualquer país do mundo que você vá, encontrará sempre o metro das lojas com o mesmo comprimento. Mas para achar o comprimento que devia ter o metro, os sábios torceram a orelha.”

Criador de Emília e dos demais personagens antológicos do Sítio do Picapau Amarelo, que povoam o imaginário de gerações de brasileiros, Lobato é homenageado no Dia Nacional do Livro Infantil, comemorado esta semana. A data, 18 de abril, é uma referência ao nascimento do escritor, ocorrida em Taubaté (SP), em 1882.

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