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8 de maio de 2017, 11:11h

Após convento, ex-noviça ganha medalhas da OBMEP e sonhos

Na vida de Lucy, Matemática é uma palavra mágica. Basta pronunciá-la para testemunhar uma transformação: a timidez que represa o discurso, aos poucos, cede lugar para uma voz firme e cheia de entusiasmo. E apesar da fala pausada de quem mede palavras, ela desfia histórias, gargalha e, aqui e ali, repete uma frase que sinaliza a coragem e a determinação que moram nela: “Resolvi experimentar.”

Foi assim em 2013, ao ser surpreendida com uma prova da OBMEP no Colégio Estadual Luiz Tito de Almeida, na zona rural de Bom Jesus do Itabapoana (RJ), no Noroeste fluminense. “Achei terrível de difícil. Fiquei quase até o fim do horário previsto. Acabei acertando 10 das 20 questões e passei para a segunda fase. Alguns colegas falaram que eu nem deveria tentar. Mas resolvi experimentar.” Bendita decisão. Acabou por ganhar uma medalha de ouro em sua primeira participação na OBMEP.

O feito de Lucy Maria Degli Esposti Pereira causou um reboliço dentro e fora de casa. Trouxe uma alegria até então desconhecida para Simão e Catarina, uma família modesta da zona rural de Bom Jesus do Itabapoana – ele motorista e pedreiro; ela merendeira. Três filhos, além de Lucy. A medalha foi inédita também para o colégio. “Achava que não era para mim. Quase morri de felicidade”, conta, lembrando que o sentimento que a invadiu foi um alento diante das reviravoltas de sua vida, até então focada na preparação para a vida religiosa.

Lucy deixara os estudos aos 12 anos, após concluir o 5º ano do Ensino Fundamental. “Na época, na roça, onde moro, as pessoas não continuavam os estudos. A outra escola era muito longe. Aí parei”, diz ela, que decidiu seguir os passos da irmã mais velha, freira. Durante oito anos, dedicou-se à religião. Acabou descobrindo não ter vocação. Retornou à casa dos pais e passou a ocupar o tempo com tarefas domésticas. Também ajudava Simão na lida de pedreiro.

Até que um dia, como ela mesma conta, tomou coragem e perguntou ao pai se deveria continuar os estudos. “Fiquei morrendo de medo, mas ele ficou muito alegre. Só disse que achava que eu não aguentaria. Resolvi experimentar.” Assim, aos 27 anos, virou a mais nova aluna da turma noturna do 6º ano do Colégio Estadual Luiz Tito de Almeida. “Não tinha tanta esperança, minha autoestima estava muito baixa. Mas foi um alívio para mim.”

Com o destaque na Olimpíada de Matemática, tomou gosto pelo assunto. Por ter conquistado medalha, tornou-se aluna do Programa de Iniciação Científica (PIC) da OBMEP. Além das aulas virtuais, uma vez ao mês, seguia para um encontro presencial, em Itaperuna (RJ), onde uma professora universitária recebia os alunos para uma imersão em cálculos e raciocínio lógico. “Foi um mundo que se abriu. Conheci outras pessoas que também tinham interesse no mesmo assunto. E, no PIC, aprendi novas teorias, que me ajudaram muito nas outras provas da OBMEP”, detalha.

Apesar da dedicação, não era fácil cumprir os exercícios. Não que Lucy fosse incapaz de solucioná-los, a dificuldade era enviá-los. Quando o sinal da internet sumia, o jeito era pegar notebook – presente da escola para a filha ilustre – e rumar para alguma área em busca de acesso. Diante dos percalços, ela não se via no Hotel de Hilbert, evento de quatro dias que reuniria os 200 melhores estudantes do PIC em Santa Catarina. Mas um telefonema do Rio mostrou que ela estava enganada.

A participação no encontro trouxe novos aprendizados, amizades e gratidão. No caminho até lá, além do esforço pessoal, Lucy contou com o apoio de professores, familiares e de outras tantas pessoas que se empolgavam com a dedicação dela. Coordenadora de turno do Colégio Estadual Luiz Tito de Almeida, Penha Gonçalves cansou de abrir as portas da escola, que fica nas proximidades de sua casa, para Lucy conseguir acessar o fórum virtual do PIC. E se emociona ao lembrar daquela estudante que dava trabalho para os professores, não pelo mau comportamento, mas por enchê-los de perguntas, até tarde da noite, em busca do conhecimento.

“Às vezes, a aula terminava, já passava das 22h, e ela lá tirando dúvidas. É persistente, observadora, um pouco tímida e espetacular, porque saiu da roça para receber um prêmio diante de catedráticos. Isso não foi um faz-de-conta. Foi real. E para nós, que moramos no interior, e não temos muito incentivo, isso representa muito”, ressalta Penha. Sobre Lucy, o coordenador regional da OBMEP, Marcelo Corrêa, cita também o olhar atento para a coletividade, a disposição para ajudar. Por duas vezes, buscou melhorias para a escola onde estudava e foi bem-sucedida.

Mais uma característica de Lucy? Ela não espera que as coisas caiam do céu. “Não podemos aguardar de braços cruzados. Sem esforço não se consegue nada”, ensina. E foi assim, batalhando por seus objetivos, que ela conseguiu mais duas medalhas na OBMEP para o Colégio Estadual Luiz Tito de Almeida: prata em 2014 e outro ouro em 2015. Naquele ano, a conquista foi ainda mais suada, porque o atraso do Estado no pagamento do transporte escolar a impediu de frequentar a escola por dois meses. Em 2016, passou a estudar em um colégio na área urbana, a Escola Municipal Coronel Luis Vieira, e garantiu uma medalha de prata.

“Todo ano vou ao Rio buscar uma medalha”, ri, em um momento de descontração. Em uma das vezes, arrastou, com muito esforço, o pai, nada afeito a pegar estradas por ter perdido um irmão em um acidente de trânsito. Mas de tanto a filha insistir, capitulou e acompanhou Lucy à cerimônia de premiação. “Ele ficou muito feliz. Às vezes, até via que ele estava chorando de emoção”, confidencia a estudante.

Há pouco tempo, Simão andou com os olhos marejados novamente por causa de Lucy. Foi em fevereiro, quando saiu da zona rural para levar a filha à cidade e deixá-la em uma república próxima ao Instituto Federal Fluminense (IFF). “Achava que não conseguiria passar na prova, mas fiz a inscrição e resolvi experimentar.” Agora aluna do curso técnico integrado, passa o dia em sala de aula e, depois, ruma para a nova casa, onde tem um quarto só para ela. “Gosto porque, se perder o sono à noite, tenho a liberdade de acender a luz para estudar.”

No começo, Lucy confessa, foi difícil se adaptar à nova rotina. Mas agora já fez amizades na turma de 29 alunos do técnico em Agropecuária. Escolheu o curso por achá-lo útil, já que os pais têm uma pequena criação de vacas, de onde tiram o leite para ajudar no sustento da família. Além das aulas diárias, ela está envolvida com tarefas extras de predileção: preparação para a próxima OBMEP, lá mesmo, no IFF, em um horário extra; e, em breve, participação no encontro semanal do PIC, no município de Pádua.

O sonho de Lucy, 31 anos, muda ao sabor das conquistas. Medalhas ganhas, vaga garantida em uma instituição de ensino de ponta, formação técnica em andamento e ela já está pensando em sua próxima realização. “Quero fazer Engenharia Civil e mexer com obra”, adianta ela. Alguém tem dúvida de que ela vai conseguir?