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17 de julho de 2018, 10:07h

Artigo revela os talentos escondidos da OBMEP

Hexacampeão da OBMEP, Rodrigo luta contra o tempo para conciliar a necessidade de trabalhar com os estudos para o Enem. Crédito: Marianna Rios/SAGI/MDS

Nas últimas sete edições da OBMEP, os beneficiários do Programa Bolsa Família conquistaram 1.288 medalhas. O artigo  “Talentos escondidos: os beneficiários do Bolsa Família medalhistas da Olimpíada de Matemática” – que integra o Caderno de Estudos 30 – Desenvolvimento Social em Debate, publicação da Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) – apresenta a trajetória dos beneficiários do programa na OBMEP. A parte inicial do artigo foi divulgada no dia 3 de julho, no site do IMPA. Abaixo, mais um trecho da publicação.

Outro campeão com várias medalhas no currículo é o alagoano Maxmilian Barros de Siqueira. Aos 17 anos, o pentacampeão da OBMEP e menção honrosa na Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA) cursa graduação em Matemática na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ao mesmo tempo em que é bolsista do programa de iniciação científica PIC-ME. “Tenho um orientador para me ajudar com as matérias mais avançadas para facilitar a minha entrada no mestrado. A ideia é que a partir do 6º ou 7º período eu comece o mestrado.”

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A trajetória de beneficiários do Bolsa Família na OBMEP
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Maxmilian é o primeiro da família de cinco filhos a chegar à universidade. A mudança de perspectiva foi tamanha quando passou para o curso de Matemática, no segundo semestre de 2017, que parte da família decidiu se mudar da cidade natal, São José da Laje, para Maceió. Maxmilian mora com a mãe, Gilvaneide Barros, e o irmão mais novo na capital, enquanto três irmãos continuam com a avó no interior.

A renda da casa depende, basicamente, do Bolsa Família e da pensão pela morte do pai, um ex-policial militar. “Não está faltando nada, mas a renda não é flexível; vivemos perto do limite”, desabafa Maxmilian. “O Bolsa Família ajuda, porque a pensão é a única renda que a gente tem. Uso o dinheiro do Bolsa para comprar o material escolar deles”, diz Gilvaneide.

Maxmilian conta que a paixão pela matemática surgiu durante os três anos em que cursou o PIC presencial, de 2012 a 2014. “O PIC fazia com que a gente visse uma matemática pura, diferentemente da matemática aplicada que a gente via na escola. E foi aí que eu vi que a matemática ia além do que a escola mostra. Com o PIC, existia um porquê por trás de tudo, era muito gratificante e a gente se sentia motivado”, recorda-se.

O estudante lembra o papel importante da escola como apoiadora da trajetória dos alunos, especialmente dos professores no aconselhamento dos jovens. “Foi muita sorte a minha, porque talvez eu não tivesse seguido o caminho que segui sem o apoio da escola. Hoje tenho amigos que estão em cursos de Medicina, Enfermagem, Direito… as pessoas estão na universidade”, comemora.

Além do apoio da escola, outro fator que pode incentivar o bom desempenho dos estudantes é a influência positiva de se ter um medalhista em sala de aula. Em 2017, a pesquisadora Diana Moreira defendeu o doutorado na Universidade de Harvard avaliando esta questão: Recognizing performance: how awards affect winners’ and peers’ performance in Brazil.

Moreira avaliou o impacto gerado no ambiente escolar de ganhadores de menção honrosa na OBMEP e concluiu que o reconhecimento aumenta a performance acadêmica não apenas dos vencedores, mas também de seus colegas de sala, que melhoraram em cerca de 20% a participação e a nota obtida em edições futuras da Olimpíada. Segundo o estudo, esse efeito pode aumentar em 10% o ingresso em universidades. Para chegar a esses resultados, a pesquisadora usou dados de mais de cinco milhões de estudantes brasileiros em 170 mil salas de aula.

A pobreza esconde talentos

A dura realidade da pobreza e extrema pobreza no Brasil é capaz de esconder talentos como os de Luiz e Maxmilian. “É muito importante ter alguma estrutura que estimule você e te dê confiança a tentar e acreditar. Raramente encontrei um medalhista que não tivesse uma estrutura familiar”, pontua Claudio Landim.

A vulnerabilidade financeira dessas famílias é o principal fator que fragiliza tentativas de mudança de futuro. Aos 19 anos, o hexacampeão da OBMEP Rodrigo Gonçalves do Nascimento, morador do município de Capela do Alto, no interior de São Paulo, luta contra o tempo para conciliar a necessidade de trabalhar com a dedicação aos estudos para passar no Enem e iniciar a tão sonhada graduação em Engenharia Mecânica na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

Desde que concluiu o ensino médio, em 2016, Rodrigo tenta mirar no objetivo maior de entrar na faculdade, ao mesmo tempo em que precisa contribuir para a renda da casa. Já teve quatro empregos diferentes. No último, sem carteira assinada, trabalhava 12 horas por dia, inclusive aos finais de semana, em um mercadinho de um município vizinho, com direito a apenas um dia de folga na semana.

“Eu tive que parar tudo para trabalhar, mas eu quero ser alguém. Minha família inteira não tem faculdade, minha mãe trabalhou sempre com faxina, meu pai é caseiro e ganha muito pouco. Tenho vontade de sair da minha cidade para uma cidade maior, melhor, com mais oportunidade”, pondera Rodrigo.

Nesse meio tempo, concluiu um curso técnico em administração e iniciou outro em informática, mas nada lhe tira da cabeça a vontade de entrar na faculdade. Para 2018, Rodrigo deixou o último emprego para se dedicar em tempo integral à prova do Enem. Para ajudar a pagar as contas de casa, pretende fazer bicos vendendo doces e consertando computadores.

Rodrigo conta com o apoio da mãe, Iolanda Borba, e do padrasto, Agnaldo da Silva, que vendem salgados e fazem faxina para levar renda para a família. Eles recebem Bolsa Família pelo filho mais novo Ryan, de 16 anos. “O Bolsa Família me ajudou muito, apesar do pouco. Uso para comida, para conta de água, de luz”, conta Iolanda.

Se passar no Enem, Rodrigo espera receber auxílio-moradia e alimentação da universidade para conseguir se dedicar exclusivamente aos estudos. O próximo objetivo também já está traçado: um intercâmbio em Portugal. “Quero estudar pelo menos um semestre fora. Os outros falam que eu sonho demais, mas eu não considero um sonho, eu considero um objetivo”, brinca. “É difícil conseguir alguma coisa, só estudando mesmo, e talvez só o Rodrigo consiga um futuro. Apesar de a gente dar bastante força, é cada um por si”, diz Iolanda.

Casos como o de Rodrigo evidenciam a necessidade urgente de criar mais oportunidades e incentivos para que esses jovens brilhantes possam desenvolver o seu potencial. Para isso, são necessários esforços conjuntos – da esfera pública e privada – que garantam que esses talentos não fiquem escondidos.

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