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29 de janeiro de 2019, 09:56h

A herança matemática da Universidade de Göttingen

Universidade de Göttingen

Fundada entre 1150 e 1200 d.C., na Baixa Saxônia, região central da Alemanha, Göttingen é uma pequena cidade, mas com uma história grandiosa, especialmente no que diz respeito à Matemática.
A cidade universitária, reduto de especialistas como Gauss, Riemann, Hilbert e Noether — só para citar alguns dos mais renomados —, foi por um bom tempo um dos centros mais produtivos da Matemática mundial. Seu destino se transformou com o surgimento do nacional-socialismo, a base do partido nazista, no início do século 20.
Se por um lado a ascensão de Göttingen à primazia matemática ocorreu ao longo de gerações, sua queda foi rápida. Em menos de uma década, viu as principais estrelas “convidadas” a deixar a Alemanha no início dos anos 1930, por questões políticas.

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O expurgo nazista que levou as melhores mentes da Universidade de Göttingen para o exterior acabou por transferir seu legado matemático para universidades americanas e britânicas, que hoje dominam o cenário da pesquisa mundial.

De Gauss a Hilbert
Fundada em 1734, em pleno Iluminismo, os pesquisadores da Universidade de Göttingen tinham autonomia intelectual. Como tarefas, promoviam o conhecimento e realizavam pesquisas originais, em um ambiente de educação igualitária, onde ricos e pobres dividiam os mesmos bancos escolares e privilégios. A fórmula parece ter dado certo. No final do século 18, Göttingen já era um conhecido centro de ensino científico. 
A boa reputação na Matemática só ganhou destaque entre 1795 e 1855, quando Carl Friedrich Gauss se tornou professor e fez importantes contribuições à ciência, com foco na álgebra e até na astronomia. A fama cresceu à medida que matemáticos de toda a Europa começaram a se reunir na cidade. Bernhard Riemann foi um deles. Aluno de Gauss e chefe do Departamento de Matemática em Göttingen (1859-1866), inventou a geometria Riemanniana, que cimentaria o caminho para o futuro trabalho do matemático e físico Albert Einstein sobre a Teoria da Relatividade. 

Monumento em Göttingen representa Gauss ao lado do físico Wilhelm Weber

Felix Klein, um dos fundadores do Congresso Internacional dos Matemáticos, foi outro expoente da cidade. Chefe do departamento de 1886 a 1913, descreveu com pioneirismo a garrafa de Klein, objeto tridimensional de apenas um lado, semelhante à famosa faixa de Moebius (símbolo do IMPA).
Klein foi fundamental na chegada da próxima geração de matemáticos de renome a Göttingen. Especialistas como Carl Runge, que ajudou a inventar componentes essenciais ao software de previsão climática mais preciso da atualidade, e David Hilbert.
Famoso por apresentar no ICM de Paris (1900) a lista de 23 problemas que guiaram a pesquisa matemática por todo o século 20, Hilbert foi um orientador destacado. Enquanto atuou como professor e chefe do Departamento de Matemática em Göttingen, orientou 76 estudantes de doutorado, muitos dos quais fizeram importantes descobertas, como Wilhelm Ackermann, Richard Courant e Hermann Weyl.
Desde os tempos de Gauss até o início dos anos 1930, a fase áurea da Matemática de Göttingen sobreviveu a períodos de intensa agitação política, como as Guerras Napoleônicas, a Guerra Franco-Prussiana e a 1ª Guerra Mundial. A derrocada veio com a onda nacionalista que acompanhou a ascensão dos nazistas ao poder.
A lei de 1933 tornou ilegal que não arianos, especificamente judeus, atuassem como professores e pesquisadores na Alemanha. Isso fechou as portas de Göttingen para muitos matemáticos de renome.

Da esquerda para a direita: Alfréd Haar, Franz Hilbert, Hermann Minkowski, desconhecido, Käthe Hilbert, David Hilbert e Ernst Hellinger

Emmy Noether, primeira professora de Matemática em Göttingen e tida por Einstein como a mulher mais importante da história da Matemática, teve de dar adeus em 1933. Passou a lecionar no Bryn Mawr College (EUA). 
No mesmo ano, Richard Courant, um dos discípulos de Hilbert, seguiu o mesmo caminho e ajudou a fundar o principal instituto de Matemática Aplicada dos EUA, na Universidade de Nova York.
Hermann Weyl, aluno e sucessor de Hilbert como chefe de Matemática em Göttingen, encontrou um novo lar em Princeton (EUA), onde ajudou a transformar o Instituto de Estudos Avançados (IAS) em potência de pesquisa.
A perda desses profissionais enfraqueceu a Universidade de Göttingen. Foi David Hilbert, que se aposentou pouco antes da perseguição nazista, quem deu a verdadeira dimensão ao problema. Perguntado pelo ministro da Ciência se a Matemática de Göttingen havia sofrido com a partida dos judeus e amigos dos judeus, deu uma resposta curta:“Sofreu? Não sofreu, senhor ministro. Não existe mais!”.

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