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24 de julho de 2017, 09:43h

'Colaboração é mais importante do que competição'

 

 

 

Nicolay Nicolov. Você ainda não sabe, mas provavelmente vai ter inveja dele tão logo termine de ler este primeiro parágrafo. No segundo dia de prova da IMO, em 1995, o búlgaro entregou a prova muito antes dos demais competidores, pois queria dormir. E, pasmem, resolveu todos os problemas, atingindo a nota perfeita: 42 pontos. Para quem duvida, Artur Avila, pesquisador extraordinário do IMPA e único brasileiro a receber a Medalha Fields, atesta a veracidade, pois foi testemunha do fato.

A história foi contada pelo próprio Artur para uma plateia formada por boa parte dos 623 estudantes da IMO, reunidos na tarde desta sexta-feira (21) no auditório de um hotel na Barra da Tijuca. Além de falar de sua trajetória, o brasileiro comentou o trabalho de medalhistas da IMO 1995 que, assim como ele, seguiram um bem-sucedido caminho na Matemática.

Além de Nicolay, que se tornou professor da University College Oxford, Artur citou, entre outros, o britânico Ben Green; o francês Emmanuel Breuillard; o americano Jacob Lurie e o romeno Ciprian Manoelescu, que participou de três edições da olimpíada, e, incrivelmente, conquistou três notas perfeitas.

Artur falou ainda da matemática iraniana Maryam Mirzakhani, que morreu na sexta-feira (14). Os dois se conheceram no momento da premiação da IMO, naquele mesmo 1995. Ambos foram medalha de ouro. “Ela estava usando uma roupa tradicional do Irã, com a cabeça coberta. Conversamos um pouco”, disse, lembrando que, anos depois, em uma conversa com Curtis McMullen – Medalha Fields em 1998 – soube dela novamente.

“Ele me falou sobre uma estudante maravilhosa, que solucionara um problema importante. Era Maryam”, disse Artur, recordando que encontrou por diversas vezes com a iraniana durante conferências de matemáticos. Eles se viram pela última vez em 2014, em Seul, quando ambos ganharam a Medalha Fields. “Ela estava feliz com a filha”, recorda, destacando ainda a modéstia e a perseverança de Maryam, que passava anos se dedicando à solução de um problema.

Embora não tenha seguido o caminho da matemática olímpica, Artur contou que, de vez em quando, gosta de brincar um pouco, resolvendo problemas da IMO. Sobre a prova aplicada esta semana, disse que ela foi muito difícil. “Alguns problemas eu consegui resolver; outros eu achei muito estranhos”, declarou, revelando que nunca costuma sequer olhar os problemas de geometria.

E diante das cadeiras tomadas por estudantes das mais diversas nacionalidades, com idades variadas, garotos – e ainda – garotas, o brasileiro destacou o valor do respeito e da diversidade: “Há várias maneiras de se fazer matemática. Ninguém precisa imolar ninguém por causa do modo como o outro faz as coisas”, destacou, ressaltando que, na Matemática, a “colaboração é mais importante do que a competição.”