Navegar

26 de fevereiro de 2019, 04:54h

A ciência sempre esperou por Daniel  Blanquicett

Daniel Ricardo Blanquicett Tordecilla, 27 anos, nascido em Las Pavas, norte da Colômbia, está prestes a se tornar doutor em Matemática pelo IMPA, mas sua vida poderia ter sido diferente não fosse um professor que identificou o talento para a ciência no filho de um carpinteiro e de uma dona de casa.

A pouca escolaridade dos pais, que cursaram apenas o primário, não os impediu de ajudar o filho no aprendizado escolar. Segundo Blanquicett, foram eles os responsáveis por sua sólida base em aritmética. 

Leia também: Brasil conquista três medalhas na Romanian of Mathematics

Abertas as inscrições para o Prêmio Elon Lages Lima

Dissertação cria nova técnica na área de dinâmica de fluidos

No Ensino Médio, um professor de Matemática teve papel fundamental em suas escolhas futuras. Cansado de dar nota dez ao menino prodígio, passou a “provocá-lo” de outra maneira.

“O professor cansou de colocar a nota dez em minhas provas e começou a escrever: ‘la ciencia te espera’. Meus pais morriam de orgulho disso, e acho sempre bom lembrar desta frase. Isso me incentivou”.

Os outros “culpados” por Blanquicett ter se tornado matemático são os tios. Além de reforçar seu gosto pela disciplina, não o deixaram esmorecer diante das dificuldades para concluir a graduação na Universidad de Córdoba, em Montería (Colômbia). 
A chegada ao IMPA foi outro “empurrão” da vida. No último semestre da faculdade, um professor o desafiou a vir ao Brasil assistir ao Curso de Verão do IMPA. Com uma bolsa de estudos, logo percebeu que sua vida estava prestes a mudar.

Ritmo acelerado

“Logo na minha primeira visita ao IMPA senti uma mudança no ritmo de ensino e realmente fiquei pensando quando voltaria para cá”, relembra ele, que, seguindo os passos de colegas latino-americanos, viu no IMPA a oportunidade de se especializar em um dos melhores centros de Matemática do mundo.

Blanquicett desembarcou no Rio de Janeiro em 2013 para fazer o mestrado. Na sequência, emendou o doutorado. Já está há seis anos no Brasil.

“O mais difícil foi ficar longe da família, principalmente no começo. Com mais ou menos um mês passei a entender a língua, mas isso não seria empecilho, até porque, para fazer Matemática, não precisa ser fluente, basta entender os universais”, diz ele. 

Especialista em Combinatória e Probabilidade, na próxima terça-feira (26), defenderá a tese “Percolação de Bootstrap e algumas aplicações”, com transmissão ao vivo no YouTube do instituto.
Orientado pelo premiado Robert Morris, Blanquicett trata na tese da Percolação de Bootstrap, uma versão monótona da dinâmica de Glauber para o modelo Ising de ferromagnetismo, e algumas aplicações para modelos dinâmicos (não-monótonos).

Muitas aplicações

Para entender um pouco o tema da tese do estudante colombiano, imagine a propagação de uma infecção em células. Como aprendemos nas aulas de biologia, as células são infectadas de acordo com uma dinâmica própria, de forma que, após a infecção, ficam assim para sempre. 
Na tese, o matemático busca determinar o threshold de percolação (infecção total) e dizer qual o valor ínfimo de uma densidade de células infectadas, tal que, ao final do processo, todas estejam contaminadas.
“No meu trabalho abordei a aplicação de modelos complexos do tipo votante. O resultado que apresento é como o consenso em decisões políticas. Imagine que há dois candidatos. Os eleitores vão mudando de opinião: ora querem votar no candidato A, ora querem votar em B. Porém, ao final do processo, todos acabam votando em apenas um deles. O que eu estudo são esses períodos das mudanças de decisão antes de todos optarem pelo mesmo candidato”, explica.
Segundo ele, o modelo tem aplicação em diversas áreas, como Física, Biologia, Ciência de Materiais, Computação e Redes Sociais. 

De malas prontas

Para Blanquicett, trabalhar com Robert Morris foi inspirador. Além da relação aluno-professor, desenvolveram uma amizade que deixou boas marcas. “Cada vez que falo com ele me surpreendo com sua criatividade. Ele nunca deixa de me surpreender com ideias novas, algum conteúdo novo. Isso me incentivou muito”, disse o aluno.
Embora goste de ressaltar suas origens, os seis anos no Brasil foram marcantes. Ele não pensa em deixar o Brasil logo após a defesa da tese. 
Com pós-doutorado garantido para julho na Universidade da Califórnia, em Davis (EUA), Blanquicett tenta conseguir outro curso no Brasil no primeiro semestre. “Quero tentar ficar aqui”, revelou.
Afinal, quem gostaria de abrir mão das partidas de vôlei e futebol da turma do instituto e, de quebra, ainda estudar? Blanquicett não quer. Pensa em retornar à Colômbia um dia para ajudar a fortalecer a Matemática em seu país. Mas, enquanto isso não acontece, vai levando a vida na sua Macondo carioca.

 
SERVIÇO:
Defesa de tese de Daniel Ricardo Blanquicett Tordecilla
“Percolação de Bootstrap e algumas aplicações”
Data: 26 de fevereiro | Horário: 10h | Local: sala 228

Transmissão ao vivo: youtube.com/impa.br

Leia também: E o Oscar vai para…. Quem responde é a Matemática

Os marcianos já caminharam na Terra

Trimedalhista da OBMEP garante ingresso na Unicamp