‘Vi que dava pra ter uma carreira com matemática’, conta Barbosa
“Sempre gostei de matemática porque era a matéria que eu precisava memorizar menos”, lembra Gabriel Barbosa, entre risos. Cearense, nascido em Fortaleza, o doutorando do IMPA abraçou a lógica matemática e transformou a afinidade em escolha profissional. Nesta quinta-feira (18), ele defende a tese “Interseções improváveis de folheações singulares”, sob orientação do pesquisador e diretor-adjunto do IMPA, Jorge Vitório Pereira.
A defesa encerra um ciclo iniciado em 2021, quando Barbosa ingressou no doutorado, após concluir a graduação e o mestrado em matemática na Universidade Federal do Ceará (UFC). A escolha pelo bacharelado, no entanto, não foi imediata. Na juventude, ele pensava em cursar engenharia.
“Na minha família, acho que ninguém gosta de matemática. Quando falei que ia fazer o curso, foi uma surpresa. Por um tempo, sugeriram que eu tentasse mudar”, conta. Mas bastaram dois meses cursando matemática da UFC para que a vocação falasse mais alto. “Vi que dava pra ter uma carreira bacana com matemática. E me apaixonei pelo ambiente acadêmico.”
Já a conexão com o IMPA começou durante o Verão do IMPA, o qual jovem frequentou em 2019 e 2020, ainda como mestrando da UFC. “Todo mundo ouvia falar do IMPA. No curso de matemática, é impossível não conhecer o instituto. Muitos livros que usamos são escritos por professores do IMPA, como os do Elon Lages. Onde quer que você esteja no Brasil, sabemos que o IMPA é uma referência na matemática”.
A mudança para o Rio trouxe desafios, como o custo de vida elevado, mas também abriu portas para um ambiente científico efervescente. “Tem sempre algo acontecendo, e a troca com pessoas do mundo inteiro foi essencial para minha formação. Conheci colegas com quem quero manter contato para além do doutorado.”
A trajetória no IMPA foi agraciada ainda com uma oportunidade especial. Em 2024, Barbosa realizou um doutorado-sanduíche de cinco meses na Université de Rennes, na França, onde pôde aprofundar sua pesquisa e colaborar com demais pesquisadores. “Foi uma ótima experiência. Ver como se faz matemática em outros lugares do mundo ajuda muito na forma como a gente pensa e produz ciência aqui”.
A área de Folheações Holomorfas, na qual Barbosa está inserido, representa uma tradição forte da geometria e da topologia, áreas que buscam catalogar e compreender a diversidade de formas e estruturas que aparecem na matemática pura.
“Trabalho com objetos que se chamam Folheações. Para falar de Folheações, precisamos pensar nas variedades, que são nossos espaços geométricos. Uma folheação seria uma decomposição dessa variedade em várias ‘variedadezinhas’ menores, como se fosse um livro. Então, uma folheação desse livro seria como as páginas dele. O que tento fazer é entender esses objetos, as folheações, saber como elas se diferenciam, ter algum jeito de classificá-las. Em geometria, em geral, diria que o que a gente faz seria catalogar os objetos diferentes”, explicou.
Na pesquisa, o doutorando trabalhou, mais especificamente, sobre as folheações holomorfas singulares em variedades projetivas complexas, tendo como foco famílias de folheações de codimensão 1 cuja interseção total define uma folheação de codimensão inesperadamente baixa. A ideia foi, sob condições adequadas, demonstrar a existência de estruturas transversais homogêneas para cada folheação da família.
Agora, prestes a encerrar o doutorado, Barbosa busca uma vaga de pós-doutorado. “Não me importaria de não voltar ao Ceará. Acho que aprendi a ser nômade”, brinca.
Para ele, o IMPA foi muito mais do que um centro de excelência em pesquisa, mas também um espaço de crescimento, amizades e descobertas. “Aprendi a gostar do Rio, da cidade, conhecer as belezas. Hoje, acho o Rio uma cidade fantástica.”
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