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Viana: 'Temos de resolver desafios que a sociedade acha interessante’

“Temos que resolver problemas que a sociedade acha interessante”, declarou Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA, em mesa-redonda do 35º Colóquio Brasileiro de Matemática, nesta quarta-feira (30). A discussão tratou da relação entre a produção acadêmica na área de exatas e a entrega de soluções para o mercado, bem como os desafios e alternativas para aproximação entre os campos. 

Mediado pela pesquisadora da Escola de Matemática Aplicada da FGV (Fundação Getúlio Vargas) María Soledad, o debate contou com Gustavo Nonato (USP-SC), João Carabetta (Prefeitura do Rio de Janeiro), Pedro Peixoto (USP) e Viana.

O diretor-geral do IMPA defendeu a aproximação entre academia e setor produtivo e citou iniciativas do IMPA que procuram manter uma relação próxima com o mercado, como o Centro Pi (Centro de Inovação e Projetos IMPA) e a graduação do instituto, o IMPA Tech.

“Por que importa fazer esse diálogo? Deve ser porque vocês estão aqui, nesse horário. Não é sobre prestar serviço, prestar serviço é sem graça. É sobre fazer pesquisa conjunta com empresas. É encontrar soluções com a componente teórica publicada em papers que resolvam problemas reais. E isso implica uma certa dose de humildade. Nós matemáticos prezamos muito pela nossa autonomia intelectual. Pensamos coisas como ‘vou resolver problemas que eu acho interessantes’. Nós também temos que resolver problemas que a sociedade acha interessante”, disse Viana. 

A trajetória de João Carabetta é fruto da parceria academia-mercado. Físico de formação, Carabetta hoje é chefe executivo de tecnologia na Prefeitura do Rio de Janeiro. Ele dividiu a sua experiência e lembrou que boa parte das características desejadas pela indústria são previamente ensinadas também na academia. Entre elas, a capacidade resolutiva. “No mercado, queremos aqueles que possam aprender qualquer coisa rapidamente. Que sejam resolutivos. E isso é geralmente o que a gente aprende na academia. Eles nos dão um livro misterioso para fazermos uma lista de exercícios”, explicou. 

João Carabetta

A relação entre o conhecimento acadêmico e o dia a dia no mercado também é vista pela ótica da complementaridade pelo pesquisador da USP Pedro Peixoto. “Uma coisa que eu costumo perguntar para os meus alunos é ‘Vocês vão querer ser usuários, ou desenvolvedores?’. Se quisermos fazer desenvolvimento, entender o que está acontecendo, o estudo teórico é importante. Não dá para entender o que uma Rede Neural faz, por exemplo, sem ter uma base de Cálculo, de Estatística, de Álgebra Linear. O aprendizado de exatas tem muito a ver com isso. Podemos decidir por uma carreira em que seremos usuário de IA, ou uma carreira em que vamos desenvolver IA. Fica aí essa provocação. Vocês querem ser usuários ou desenvolver essas novas ferramentas?” 

Pedro Peixoto

 

A estudante do IMPA Tech Manuela Ronconi é uma das estudantes da nova geração que acredita na união entre academia e mercado. Ela contou que esse foi um dos fatores que a motivou pela escolha da graduação do IMPA. “Quando encontrei a proposta do IMPA Tech, eu fiquei muito feliz positivamente. Gostei muito da grade de horários e da imersão no mundo acadêmico e corporativo. No IMPA Tech, vemos muito isso com a nossa proximidade às startups, com elas vamos fazer as nossas matérias de estágio”, contou Manuela. 

Manuela Ronconi

Outra discussão importante da mesa-redonda foi os desafios que ainda marcam a aproximação entre a academia e a indústria. Os convidados citaram a dificuldade de comunicação entre universidade, empresas privadas e setor público; a resistência da universidade em promover essa conversa; e falta de interesse do mercado em acadêmicos de formação. 

Esse cenário desafiador gerou interesse do estudante de graduação em matemática da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Victor Mazzotti no debate. “Achei a mesa-redonda ótima, era a principal que eu queria ver no dia porque é muito nebuloso quando estamos na graduação da matemática visualizar as perspectivas futuras para além da academia. É preciso fazer muito debate e foi bem gratificante ver os rumos dessa discussão”, contou Mazzoti. 

Victor Mazzotti


Apesar dos desafios ainda existentes, ao final da mesa-redonda, o pesquisador Gustavo Nonato deixou uma mensagem de incentivo e apontou para avanços na parceria entre academia-mercado. “Essa relação já melhorou bastante. O setor produtivo já enxerga a academia como um parceiro. Claro, ainda existem problemas que precisam ser resolvidos. E essa é uma realidade que vai continuar melhorando na minha opinião, embora a velocidade seja lenta”.

Gustavo Nonato

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