Por trás do FestMat: comitê fala sobre idealização do evento
A matemática pode ser muito mais do que números, fórmulas e formas geométricas. Ela reúne diferentes maneiras de pensar, organizar ideias e interpretar a realidade. Foi a partir dessa perspectiva que o Festival Nacional da Matemática (FestMat) criou os “mundos matemáticos”, uma forma lúdica de apresentar ao público a diversidade da disciplina.
Em uma mesa-redonda realizada neste sábado (29), o comitê acadêmico do Festival, formado por Asla Sá, do IMPA Tech, Aubin Arroyo, da UNAM, e Felipe Bellio, da PUC-Rio, apresentou o processo criativo do tema do evento. A ideia inicial era trabalhar com os “poderes da matemática”: habilidades adquiridas ao longo do aprendizado, como se cada novo conhecimento fosse um superpoder. O conceito, porém, evoluiu para uma viagem por diferentes universos matemáticos.
“A Matemática é Pop, então pensamos logo em quadrinhos, em super-heróis, para mostrar os poderes que os matemáticos adquirem. São habilidades desenvolvidas ao longo do aprendizado que podem virar poderes de forma lúdica, mas depois transformamos em mundos para que os visitantes possam visitá-los e explorá-los”, explicou Felipe.
A proposta parte da ideia de que áreas como geometria, álgebra, lógica e probabilidade oferecem diferentes formas de observar e resolver problemas, mas não estão isoladas. Ao contrário, seus conceitos se encontram e se complementam.
“Trabalhamos juntos nessa ideia de comunicar a matemática de forma lúdica. Existe um lugar comum de pensar a disciplina apenas em números ou formas, mas ao fazer matemática, vemos muita coisa que fica difícil de comunicar. A partir da experiência, passamos a identificar que existem diferentes perspectivas e olhares que usam técnicas diferentes para olhar pro mundo. Criamos esse posicionamento para passear pela diversidade da matemática que nem sempre é percebida pelo público geral”, afirma Asla Sá.
Ao fim, a mesa-redonda “Colecionando mundos matemáticos” convidou o público a enxergar a matemática como um conjunto de linguagens para descrever e organizar o mundo observado e imaginado. “A Matemática está em todos os cantos, ela é fundamental. Aonde vocês olharem, ela está lá”, resumiu Arroyo.
O mundo cabe num número?” com Nina da Hora
Outro destaque deste sábado foi a palestra da pesquisadora e diretora executiva do Instituto da Hora, Nina da Hora. A partir da indagação “O mundo cabe num número?”, Nina explicou de que forma as imagens são traduzidas em informação para os computadores e como esse processo está na base do funcionamento das inteligências artificiais. Para a máquina, uma fotografia não é um rosto, um carro ou uma paisagem, mas um conjunto de números que representa diferentes informações da imagem, como cores, posições e formas. “O celular não está olhando o meu rosto, ele está olhando um conjunto que varia entre branco e preto de números e cada um desses números apresenta uma informação diferente”, afirmou.
A pesquisadora mostrou que, antes de uma imagem ser reconhecida por um sistema, a matemática estabelece relações entre pontos, linhas, medidas e matrizes para construir um contexto. A partir de muitos exemplos, as redes neurais conseguem identificar padrões e criar regras para diferenciar, por exemplo, um cachorro de um gato ou reconhecer características de um rosto. Nas IAs generativas, esses padrões podem ser recombinados para produzir novas imagens e informações. O processo, no entanto, também envolve escolhas humanas: quais exemplos serão utilizados, quais rostos serão analisados e como esses dados serão interpretados.
Ao discutir os limites dessa tradução, Nina destacou que transformar o mundo em números não significa capturá-lo por completo. “Esse é o grande motivo da gente não conseguir traduzir o mundo inteiro em somente vetores, números”, afirmou. Para ela, a interpretação humana continua sendo necessária, especialmente porque os dados carregam as escolhas feitas por quem os seleciona e organiza. A palestra, assim, colocou uma questão matemática e filosófica no centro do debate sobre inteligência artificial: até que ponto os números, por mais numerosos e precisos que sejam, conseguem representar a complexidade do mundo?
