Heckman relaciona psicologia e economia em plenária
Traços de personalidade podem ajudar a explicar como as pessoas tomam decisões diante de situações de risco. Essa é a ideia que orienta uma pesquisa apresentada nesta sexta-feira (17) pelo vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2000, James Heckman, durante a 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), realizada no IMPA.
O economista da Universidade de Chicago mostrou como sua pesquisa busca aproximar economia e psicologia ao incorporar traços de personalidade em modelos econométricos utilizados para compreender decisões sob risco. Em vez de considerar preferências econômicas como características fixas, o estudo investiga como elas se relacionam com habilidades cognitivas, personalidade e experiências individuais.
O trabalho, ainda em desenvolvimento, utiliza os chamados Big Five - cinco grandes dimensões da personalidade estudadas pela psicologia - e procura relacioná-los a parâmetros econômicos, como a aversão ao risco e a tomada de decisão.
Para isso, uma equipe acompanha cerca de sete mil estudantes chineses desde os primeiros anos da escola. A base de dados reúne informações sobre desempenho escolar, habilidades cognitivas, avaliações feitas por professores, pais e pelos próprios alunos, além de experimentos que medem preferências diante do risco.
Entre os resultados apresentados, Heckman mostrou que diferenças frequentemente atribuídas apenas ao gênero tornam-se mais complexas quando são levados em consideração traços de personalidade. Segundo o pesquisador, fatores psicológicos ajudam a explicar como as crianças respondem a situações de incerteza, enquanto características socioeconômicas influenciam esse comportamento de forma indireta, por meio da personalidade.
O Nobel ressaltou, no entanto, que as conclusões ainda são preliminares. "Este ainda é um programa de pesquisa, não é um assunto concluído." Ao explicar o objetivo do trabalho, ele afirmou que a proposta é construir uma ponte entre duas áreas que historicamente evoluíram de forma separada.
"Estamos tentando relacionar essas características que os psicólogos desenvolveram como formas de descrever a heterogeneidade entre os indivíduos e ver como elas se relacionam com parâmetros de preferência econômica", explicou.
Para o professor da Universidade de Brasília (UnB) Rogério Mazzali, um dos principais méritos da pesquisa é ampliar a forma como a economia compreende o comportamento humano.
"O professor James Heckman mostrou um modelo em que começa a incorporar questões psicológicas na modelagem econométrica da economia, algo que normalmente não fazemos. (…) O que ele mostra é que a coisa é um pouco mais complexa, porque comportamentos como a aversão ao risco dependem das características de personalidade dos indivíduos", explicou.
A 25ª SAET começou no IMPA na última segunda-feira (13) e termina neste sábado (18) com uma homenagem ao pesquisador emérito do IMPA, Aloisio Araujo, que completou 80 anos em janeiro. Antes da plenária, Heckman celebrou Araujo. "Aloisio merece muita homenagem", afirmou.
