Folha: 'Todo homem bonito é idiota?’
Reprodução da coluna de Marcelo Viana na Folha de S. Paulo.
A querida leitora Vera tem andado de baixo astral, cada vez mais descrente em sua vida romântica: "todo homem que me atrai é um idiota, só os feios são legais!", desabafou. Tentei consolá-la explicando que se trata de fenômeno comum: nas mais diversas situações quotidianas, características que se esperaria que fossem independentes, como beleza e simpatia, aparentam estar negativamente relacionadas —parece que para que uma melhore a outra tem que piorar.
São comuns as queixas de que os livros populares costumam ter baixa qualidade literária, e os livros bons geralmente não vendem bem. Será que as pessoas só gostam de livros ruins?
Outro lugar comum é que pessoas inteligentes têm pouca habilidade social, aqueles que interagem bem em sociedade não costumam ser brilhantes. É a origem do estereótipo do "nerd". Um dia desses um colega que eu não conhecia ficou surpreso porque respondi a seu e-mail. Segundo ele, "matemáticos reconhecidos costumam ser metidos a besta".
Esse fenômeno tem nome: paradoxo de Berkson, em homenagem ao médico e estatístico norte-americano Joseph Berkson (1899–1982), que o identificou pela primeira vez em 1946. Analisando os dados de pacientes em sua clínica, Berkson observou que aqueles que não tinham hipertensão apresentavam um quadro de diabetes e aqueles que não sofriam de diabetes eram hipertensos.
Uma análise superficial levaria a concluir que hipertensão e diabetes devem estar clinicamente relacionadas. No entanto, isso não é verdade: no conjunto da população, as duas enfermidades são independentes. O que acontece, explicou Berkson, é que pessoas saudáveis não se internam! Então, quando atentamos apenas para pacientes clínicos, é claro que aquele que não sofre de uma das doenças deve necessariamente apresentar a outra: caso contrário, não estaria ali.
O mesmo tipo de raciocínio explica os demais exemplos, inclusive a experiência desapontadora da querida Vera. Em seu dia a dia, ela encontra homens de todos os tipos: bonitos e feios, legais e idiotas e, na verdade, essas características são independentes. Acontece que ela não atenta para todos eles, evidentemente: os feios idiotas são rapidamente ignorados. Os bonitos podem ter qualquer tipo de personalidade: na média, são tão simpáticos quanto uma pessoa típica —o que, convenhamos, não é lá muita coisa. Já um feio que atraia a atenção dela é necessariamente um cara muito legal: se não fosse, a Vera nem notaria o sujeito.
Hoje, Berkson é amplamente reconhecido por suas contribuições à bioestatística e à epidemiologia, que desempenharam papel importante na transição da prática médica tradicional, baseada apenas em observações clínicas, para uma medicina mais moderna, apoiada em métodos quantitativos rigorosos.
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