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Folha: 'Que Brasil queremos formar?’

Estudantes em sala de aula na China

Reprodução da Coluna de Marcelo Viana na Folha de São Paulo. 

Em setembro visitarei diversas universidades na China, para participar em eventos científicos e proferir palestras, mas também com a ambição de contribuir para fortalecer as relações entre os dois países no âmbito científico, particularmente em matemática. A China está se posicionando como grande potência científica e tecnológica do futuro próximo e temos muito a aprender com eles e tudo a ganhar com uma aproximação efetiva do que está acontecendo por lá.

Os grandes problemas (e oportunidades) dos nossos dias –transição energética, inteligência artificial, saúde pública e pandemias, preservação ambiental, medicina de precisão e tantos outros– exigem cada vez mais profissionais altamente capacitados em matemática e suas tecnologias, plenamente equipados para a resolução de problemas concretos com base em evidências e dados.

A China sabe disso e vem fazendo a coisa certa: cerca da metade (!) dos seus formandos universitários estão nas áreas STEM –acrônimo em inglês que engloba ciênciatecnologia, engenharia e matemática. Os Estados Unidos, mesmo antes das atitudes absurdas do governo Trump, já estavam ficando para trás, com apenas 33% de formação nessas áreas.

Bem pior está o Brasil, onde o percentual de formações em STEM é de apenas 13% e, pior ainda, não apresenta sinais de evolução positiva. Pelo contrário, na contramão de tudo, as matrículas nas pós-graduações em ciências e engenharias vêm diminuindo de modo preocupante: queda de 12% em ciências exatas e 28% em engenharia entre 2015 e 2022.

Ao mesmo tempo, a universidade brasileira perpetua práticas e políticas de formação que parecem ignorar as necessidades do país. Um dado basta para ilustrar esse alheamento: entre as mais de 40 mil graduações diferentes oferecidas pelo nosso ensino superior, apenas 4 (nenhuma de STEM) concentram mais de 25% do total das matrículas, sendo que as suas taxas de empregabilidade rondam os pífios 10%. Em outras palavras, 9 em cada 10 diplomados nas graduações mais populares não encontram colocação profissional na sua área de formação!

Em evento realizado anos atrás no Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) o cineasta e jornalista João Moreira Salles contou do seu espanto ao verificar que a turma de cinema que ministrava na PUC-Rio estava lotada, enquanto o departamento de matemática da universidade tinha apenas um estudante. "Um país que não tem indústria cinematográfica, mas forma 20 cineastas por cada matemático, caminha rumo à catástrofe", resumiu, acrescentando com humor: "A qual será muito bem filmada, mas nem por isso deixará de ser uma catástrofe".

Leia na íntegra no site da Folha de São Paulo. 

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