Folha: 'Ptolomeu, matemático, astrônomo e cartógrafo’
Reprodução da coluna de Marcelo Viana na Folha de S. Paulo.
Quase tudo a respeito de sua vida é incerto. Nasceu por volta do ano 100 e morreu na década de 160, não sabemos onde. Acredita-se que tenha passado a maior parte da sua vida na cidade egípcia de Alexandria. O nome Claudio sugere que talvez fosse cidadão romano, já o sobrenome Ptolomeu era grego e ficou popular no Egito.
Matemático, astrônomo, astrólogo e cartógrafo, também se interessou pela música. Deixou uma dúzia de trabalhos científicos que exerceram forte influência por mais de um milênio, tanto na Europa Ocidental quanto no império Bizantino e no mundo islâmico. O mais importante foi certamente o "Tratado de Matemática", que acabou ficando conhecido como "Almagesto".
Aristarco de Samos (310 a.C.–230 a.C.) propusera que a Terra e os demais planetas se movem em torno do Sol (hipótese heliocêntrica), mas outros pensadores da Antiguidade, incluindo Aristóteles (384 a.C.–322 a.C.), se inclinaram para a hipótese geocêntrica: a Terra está imóvel no centro do Universo e todos os outros astros, incluindo o Sol e as estrelas, giram em torno dela em órbitas perfeitamente circulares.
O problema do modelo geocêntrico é que ele é incompatível com as observações astronômicas! Mas a influência de Aristóteles era tal que, no lugar de renunciar ao geocentrismo, a maioria dos astrônomos optou por fazer ajustes nele, sem alterar a sua essência. O mais bem-sucedido nisso foi Ptolomeu: em "Almagesto" ele propôs que que cada planeta se move em um pequeno círculo (epiciclo) cujo centro, por sua vez, descreve uma órbita circular maior em volta da Terra. A partir daí, ele desenvolveu um modelo do mundo matematicamente sólido e capaz de prever as posições dos planetas no céu com precisão.
"Almagesto" tornou-se a grande obra astronômica de referência durante toda a Idade Média e só viria a ser contestado a partir do Renascimento. No século 10, Al-Farabi (870–950) traduziu o original grego de Ptolomeu para o árabe. Duzentos anos depois, Gerardo de Cremona (1114–1187) verteu essa tradução para o latim, tornando o texto mais acessível aos estudiosos no Ocidente.
Mas o preço para conseguir um modelo geocêntrico consistente com as observações astronômicas foi torná-lo incrivelmente complicado. Quando as ideias de Ptolomeu começaram a ser abandonadas em favor do modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473–1543) não foi porque este fosse mais correto ou mais exato (pelo contrário!), e sim porque era muito mais simples e, portanto, conceitualmente mais satisfatório.
Enquanto "Almagesto" acabou contribuindo para atrasar o avanço da astronomia, o seu outro livro "Geografia" teve papel pioneiro no desenvolvimento da cartografia —tanto pelos acertos quanto pelos erros, aliás. A obra é uma tentativa ousada e revolucionária de mapear o mundo inteiro baseado nas mesmas coordenadas —latitude e longitude— que usamos até hoje.
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