Folha: ‘A nossa mente tem horror ao zero?’
Reprodução da Coluna de Marcelo Viana na Folha de S. Paulo.
Na minha geração ouvíamos muito na escola que, ”segundo Aristóteles, a natureza tem horror ao vácuo”. Na verdade, o filósofo grego nunca disse isso: trata-se de uma releitura simplista de seus pensamentos, perpetrada por pensadores escolásticos medievais, e por eles utilizada para ”explicar” fenômenos naturais como o comportamento de líquidos em recipientes. Quando explicações científicas desses fenômenos –por exemplo, a descoberta da pressão atmosférica– foram encontradas, o ridículo da ideia de ”horror ao vácuo” respingou também na reputação de Aristóteles, que não tinha nada a ver com isso.
O que Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) realmente disse é que espaço vazio não existe, nem pode existir, ”porque todo lugar é lugar de alguma coisa”. A ironia é que a física dos nossos dias lhe dá razão. A mecânica quântica, por exemplo, afirma que o vácuo mais perfeito está repleto de partículas subatômicas que aparecem e desaparecem sem cessar. É verosímil que o próprio espaço seja um resultado desse frenético borbulhar subatômico, sem o qual não teria sentido.
Aristóteles acreditava que ”nada resulta do nada”, mas Santo Agostinho (354 - 430), um dos maiores filósofos do cristianismo, apontou que Deus tudo criou a partir do vácuo primordial. Para ele o vazio é o que precedeu a Criação e, portanto, ele é alheio à obra divina. Assim, por caminhos distintos, Agostinho acabava concordando com Aristóteles que o vazio não existe.
No entanto, o cérebro humano é capaz de conceber o vazio, a ausência, o nada. Como fazemos isso, neurologicamente falando? Quem pergunta é o jovem neurocientista Benjy Barnett, da Universidade de Londres. É uma questão desafiadora, reconhece, mas ”afortunadamente, existem outros tipos de ausências, mais tangíveis, que nos ajudam a lidar com a questão nebulosa do ‘nada’ no cérebro”. E revela: ”é por isso que passei a maior parte da minha tese de doutorado estudando como a nossa mente entende o número zero”.
O fato é que, muitos séculos depois de termos aceitado o zero ”oficialmente” como um número, nós ainda o tratamos de forma singular. Experimentos com bebês sugerem que talvez seja porque a nossa percepção mental do zero é essencialmente diferente do modo como compreendemos outros números. Num experimento, o pesquisador mostra uma boneca e logo a esconde com uma tela. Em seguida, a tela é removida e agora são três bonecas: o bebê olha longamente, intrigado. Mas, se o experimento é realizado começando com nenhuma boneca, os bebês não demonstram qualquer interesse pelo aparecimento ”mágico” dos brinquedos.
Crianças na etapa da educação infantil já compreendem até certo ponto a relação entre zero e nada, mas ainda resistem a aceitar o zero como um número: quando perguntados, costumam responder que o menor número é o um. Algumas dessas questões podem perdurar até a idade adulta: um bom exemplo é a perene ”controvérsia” sobre se zero é par ou ímpar (é par), que sinaliza uma dificuldade em tratar o zero como qualquer outro número.