‘Eu me sinto orgulhoso do que estou conseguindo’, diz Igor Blatt
“Eu me sinto orgulhoso do que eu estou conseguindo.” Aos 29 anos, Igor Alarcon Blatt está prestes a defender a tese de doutorado no IMPA. Filho de uma dona de casa e de um vendedor, estudante de escola pública e primeiro membro da família a seguir uma trajetória acadêmica, ele apresenta, na próxima sexta-feira (11), a tese “Classificação de W-álgebras Admissíveis de Baixo Crescimento”, orientada pelo pesquisador do IMPA Jethro van Ekeren. A defesa será às 10h, na sala 232 do Instituto, com transmissão ao vivo pelo YouTube do IMPA.
O caminho que levou o matemático até o doutorado começou ainda na infância, em Cachoeiras de Macacu, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Antes de imaginar uma carreira na matemática, Blatt tinha outros planos. Como muitas crianças, queria ser jogador de futebol. Depois, pensou em ser baterista de uma banda de rock. Mais tarde, veio o interesse pela engenharia, acompanhado do fascínio por construir robôs.
A matemática, no entanto, sempre esteve por perto. Blatt era um bom aluno e, entre as disciplinas da escola, havia uma que se destacava. “A matemática sempre foi o que eu achei mais divertido”, conta.
Foi esse gosto que o levou, aos 11 anos, a participar pela primeira vez da OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas). Na estreia, recebeu uma menção honrosa. No ano seguinte, conquistou a primeira medalha de bronze.
Mais do que uma premiação, a OBMEP apresentou ao jovem um universo que ele ainda não conhecia. Por meio da olimpíada, foi convidado a participar do PIC Jr. (Programa de Iniciação Científica Jr.), iniciativa que aproxima estudantes medalhistas da matemática e da pesquisa.
“Foi no PIC que eu descobri que matemática podia ser uma carreira”, lembra. Até então, Blatt gostava de matemática como estudante. Nos encontros do programa, passou a conhecer pessoas que estudavam e trabalhavam na área. “Aprendi que existia carreira de matemática e que eu poderia seguir isso um dia.”
No último ano do ensino médio, Blatt voltou a conquistar uma medalha de bronze na OBMEP. Ainda assim, a decisão de seguir a matemática não estava completamente tomada.
Na hora de prestar vestibular, Blatt escolheu Engenharia de Controle e Automação, na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Matemática na UFF (Universidade Federal Fluminense), como segunda opção.“Falei: ‘vou fazer um semestre de matemática. E, se eu gostar, eu fico. Se eu não gostar, eu tento ir para a engenharia de novo’. E aí, já no primeiro semestre, eu me apaixonei.”
Na universidade, descobriu uma matemática diferente daquela que conhecia na escola e, para ele, ainda mais interessante. A paixão pela área veio acompanhada de dedicação. Morando em Cachoeiras de Macacu, fazia diariamente um trajeto de quatro horas de transporte público até Niterói.
Ao longo do curso, aproximou-se da teoria de representações, área que posteriormente o levaria ao estudo das álgebras de vértices. No fim da graduação, passou a cursar disciplinas do mestrado, também na UFF, e começou a fazer pesquisa.
Em 2022, quando estava concluindo o mestrado, Blatt participou de um evento no IMPA sobre álgebras de vértices e decidiu se candidatar ao doutorado. Antes de conhecer o instituto, Blatt imaginava encontrar um lugar marcado principalmente pela competitividade. Encontrou algo diferente. “As pessoas se ajudam muito, cooperam muito entre si. E é muito difícil encontrar alguém que não seja gentil com você”, conta.
Uma tese entre a matemática e a física
O trabalho desenvolvido no IMPA está inserido na área de álgebra, mais especificamente no estudo das chamadas álgebras de vértices. Essas estruturas matemáticas surgiram relacionadas a problemas da física matemática e à teoria de representações. Ao longo do tempo, estabeleceram também conexões com áreas como a teoria de cordas e a teoria quântica de campos.
Dentro desse universo, Blatt estudou as chamadas W-álgebras afins. A pesquisa procura entender e classificar uma determinada classe dessas estruturas a partir de propriedades relacionadas ao comportamento de seus caracteres, objetos matemáticos que reúnem informações sobre as representações de uma álgebra. Assim, a questão é entender como determinadas informações associadas a essas estruturas se comportam à medida que crescem e o que isso permite concluir sobre as próprias álgebras.
Para investigar o problema, Blatt trabalhou com fórmulas explícitas para os chamados dados assintóticos e com ferramentas combinatórias relacionadas a elementos nilpotentes. O resultado foi uma classificação completa de uma classe de W-álgebras admissíveis. A pesquisa também permitiu identificar essas estruturas como extensões finitas de modelos mínimos de Virasoro, uma classe importante dentro da teoria de álgebras de vértices.
Apesar de trabalhar com objetos bastante abstratos e especializados, o matemático vê a tese não apenas como a resposta a um problema específico, mas também como ponto de partida para novas perguntas. Durante a pesquisa, surgiram exemplos e ideias que não chegaram a ser incorporados ao trabalho final, mas que podem continuar sendo explorados. “A tese foi um lugar onde floresceram algumas ideias legais para eu continuar trabalhando no futuro”, afirma.
A ideia é seguir investigando esses problemas em colaboração com Jethro nos próximos meses. Para o futuro, Blatt considera possibilidades como um pós-doutorado ou uma carreira acadêmica.
A defesa marca o encerramento de uma etapa que, para ele, representa muito mais do que um título acadêmico. É a conclusão de um caminho que começou em uma escola pública de Cachoeiras de Macacu, passou pela OBMEP e pela superação de inúmeros desafios pessoais. “Quando você olha para o redor, você entende que não é fácil para alguém que veio da escola pública, que enfrentou vários problemas financeiros com a família e tudo, chegar num lugar desse. Estou feliz e orgulhoso do trajeto já percorrido.”