‘Esteves fundou uma escola de matemática verdadeira’, diz Gatto
“Eduardo Esteves criou e fundou uma escola de matemática verdadeira, uma comunidade de matemática.” A frase do matemático italiano Letterio Gatto resume a homenagem ao pesquisador do IMPA Eduardo Esteves. Gatto palestrou nesta segunda-feira (31) durante a 16ª edição do ALGA (Commutative Algebra and Algebraic Geometry), que celebra os 60 anos de Esteves.
Intitulada “Crossing the boundary, in search of limits (Eduardo Esteves: The First Thirty Years of a Mathematical Journey)”, a apresentação combinou história científica, matemática e memórias da relação entre os dois pesquisadores. Gatto contou que conheceu o trabalho de Esteves antes mesmo de encontrá-lo pessoalmente e relembrou algumas das coincidências que aproximaram suas trajetórias acadêmicas.
“Quando, no começo de 2026, os organizadores me pediram para falar sobre o trabalho de Eduardo, foi uma grande honra para mim”, afirmou. Ao reconstruir essa trajetória, o matemático destacou que, embora Esteves tenha trabalhado com diferentes assuntos — como curvas, séries lineares, subesquemas, modulações, compactificações, jacobianas, curvas tropicais, politopos e quivers —, esses temas estão conectados por uma mesma questão, a busca por limites.
Gatto destacou a busca de Esteves por compreender os limites de objetos matemáticos quando curvas se degeneram. O pesquisador retomou trabalhos sobre limites de séries lineares e de sistemas canônicos e apresentou resultados relacionados à degeneração de pontos de inflexão, os chamados flexes.
O matemático mostrou exemplos de curvas que se degeneram e discutiu o que acontece com esses pontos e sistemas nesse processo. Também apresentou trabalhos posteriores de Esteves em que as curvas podem degenerar em configurações mais gerais, envolvendo diferentes componentes e gráficos duais. Nesses casos, espaços de resíduos e politopos aparecem na descrição dos possíveis limites.
Para Gatto, embora os problemas atravessem diferentes momentos da carreira de Esteves, há uma continuidade nas questões investigadas. “Depois de 20, 25 anos, Eduardo continua perguntando as mesmas perguntas. Qual é o limite do sistema canônico quando as curvas estáveis degeneram nas fronteiras?”, afirmou.
Uma escola de matemática
Além dos resultados matemáticos, Gatto dedicou parte da apresentação à comunidade científica construída por Esteves ao longo de sua carreira. O pesquisador destacou a rede de colaboradores e estudantes que se formou em torno dos diferentes temas desenvolvidos pelo matemático brasileiro.
A percepção também chamou a atenção de pesquisadores mais jovens. Juan Pablo Ocampo, doutorando em Geometria Algébrica e orientando do pesquisador Olivier Martin, destacou a oportunidade de conhecer aspectos da trajetória de Esteves que vão além de seus resultados científicos.
“Conheci o Eduardo no início do meu doutorado. Foi muito interessante ter uma perspectiva do início da carreira dele, como eram seus trabalhos, e conhecer aspectos da personalidade dele também e, claro, como ele construiu uma comunidade científica. Isso é muito legal”, afirmou.
A homenagem também emocionou o próprio Esteves. “Estou muito grato a todos vocês que fizeram essa comunidade. Meus colegas do Brasil, de fora também. Estou realmente muito feliz, só tenho que agradecê-los”, afirmou.
Ao final, Gatto voltou à ideia que atravessou toda a palestra: a existência de uma marca própria na matemática de Esteves. “Você pode reconhecer que Eduardo, sem ler seu nome no papel, mas apenas lendo o conteúdo do papel”, afirmou, comparando essa capacidade de reconhecer um estilo matemático à possibilidade de reconhecer Beethoven apenas pela música.
“Eduardo tem uma jornada notavelmente continuada, cruzando a fronteira em busca de limites. Você vê Eduardo ainda olhando para o horizonte, para uma nova fronteira para cruzar, novos limites para encontrar. E a jornada continua”, concluiu.


