IMPA está entre os 14 selecionados pela OpenAI no mundo
Quais condições são necessárias para que pesquisadores possam fazer uso da inteligência artificial (IA) de maneira eficiente, confiável e sustentável para desenvolver pesquisa matemática? Para responder essa pergunta, a OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, selecionou o Centro PI (Centro de Projetos e Inovação IMPA) para participar de uma iniciativa internacional voltada a investigar como a IA pode transformar a pesquisa científica e ampliar oportunidades.
“A IA tem se mostrado um claro acelerador da pesquisa científica. Instituições de pesquisa como o IMPA precisam entender os custos e a infraestrutura necessários para adotar essas ferramentas com segurança e agilidade, e para se manterem resilientes à medida que esses modelos evoluem”, explicou Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA.
O projeto “Construindo pesquisa científica resiliente na Era da Inteligência” vai investigar o que é necessário para que pesquisadores de matemática incorporem essa nova realidade à pesquisa. Ao longo de seis meses, a equipe, liderada pelo cientista de projetos Daniel Yukimura, vai trabalhar diretamente com matemáticos no IMPA para avaliar fatores como infraestrutura, capacidade computacional, suporte de engenharia, capacitação, governança e custos envolvidos no uso da inteligência artificial na pesquisa.
Além de Yukimura, integram o projeto o cientista de projetos Francisco Ganacim, o pesquisador do IMPA João Pedro Ramos e a pesquisadora de pós-doutorado Cynthia Bortolotto. A iniciativa faz parte de um grupo de 14 projetos independentes selecionados pela OpenAI em diferentes regiões do mundo. A chamada recebeu mais de 400 propostas de pessoas e organizações interessadas em investigar os impactos e as oportunidades trazidos pelo avanço da inteligência artificial.
O apoio da OpenAI inclui recursos para o desenvolvimento do projeto e créditos de API que permitirão aos pesquisadores utilizar modelos de inteligência artificial durante o estudo. A experiência também ajudará a estimar quanto custaria para uma instituição manter esse tipo de acesso de forma contínua e quais estruturas seriam necessárias para viabilizá-lo.
Mais do que avaliar o acesso às ferramentas, a proposta busca compreender as condições necessárias para que elas sejam incorporadas à pesquisa de forma sustentável. Para Yukimura, existe um risco de que o avanço da IA aprofunde desigualdades já existentes entre instituições científicas.
“Existe o risco de que as universidades que têm mais recursos consigam fazer pesquisas em um nível mais rápido e maior, enquanto as instituições com menos recursos fiquem ainda mais para trás. A ideia é entender quanto custa usar a IA de forma eficiente e qual infraestrutura é necessária para que essa tecnologia não aumente uma desigualdade que já existe”, explicou.
A partir da experiência do próprio IMPA, o projeto pretende desenvolver um modelo que possa ser replicado por outras instituições interessadas em avaliar os custos e as estruturas necessárias para incorporar a IA à pesquisa científica. Durante o projeto, pesquisadores utilizarão ferramentas de inteligência artificial e a equipe acompanhará esse processo para identificar necessidades e aperfeiçoar a infraestrutura de suporte.
Ao final, será produzido um relatório com os resultados do estudo, incluindo uma análise dos custos associados ao uso de IA e da infraestrutura necessária para apoiar pesquisadores. A iniciativa também prevê orientações para o uso confiável da inteligência artificial na matemática e uma discussão sobre o direito de acesso à IA e sobre modelos distribuídos de descoberta científica.
A comunidade matemática diante de novas perguntas
Além dos aspectos práticos, o projeto nasce em um momento de transformação para a própria comunidade matemática. Empresas de tecnologia têm investido cada vez mais no desenvolvimento de sistemas capazes de resolver problemas matemáticos complexos, enquanto pesquisadores começam a experimentar novas formas de interação entre inteligência artificial e produção científica.
"A comunidade matemática está se perguntando o que vem pela frente. Tem muito dinheiro sendo investido em IA para fazer matemática e, ao mesmo tempo, as empresas estão colocando muitos esforços para mostrar o avanço desses modelos justamente por meio da resolução de problemas matemáticos. Parte desse projeto é justamente tentar entender melhor como a pesquisa em matemática pode evoluir nos próximos anos. Isso vai ser importante para que o IMPA e outras instituições possam estar melhor preparadas para possíveis mudanças”, refletiu Yukimura.
A análise envolve desde a maneira como matemáticos trabalham até as condições necessárias para que diferentes instituições possam participar da transformação. Em um cenário no qual o acesso a modelos avançados também envolve custos computacionais e financeiros, compreender essas diferenças pode ser decisivo para evitar que a nova tecnologia concentre ainda mais a capacidade de produção científica em instituições com maior disponibilidade de recursos.
Nesse sentido, o projeto busca olhar para a IA não apenas como uma ferramenta, mas como uma transformação que exige novas estruturas de pesquisa. A experiência brasileira poderá contribuir para um debate mais amplo sobre como instituições científicas, especialmente aquelas fora dos grandes centros tecnológicos, podem se preparar para essa mudança.