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‘Celebrando Jacob Palis: um cientista que transformou vidas’

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) promoveu o encontro “Celebrando a vida de Jacob Palis”, nesta sexta-feira (5), na sede da entidade no Rio de Janeiro. A cerimônia, aberta ao público e transmitida pelo canal da ABC no YouTube, homenageou a trajetória do matemático falecido em maio deste ano. Reconhecido internacionalmente por suas contribuições à teoria dos sistemas dinâmicos, Palis construiu uma carreira marcada por excelência científica, liderança institucional e um profundo compromisso com o desenvolvimento da ciência no Brasil.

Conduzida pela presidente da ABC, Helena Nader, a solenidade contou com depoimentos presenciais e por vídeo de ex-ministros, cientistas brasileiros e estrangeiros, ex-alunos, amigos e familiares. Helena emocionou o público ao lembrar o convívio próximo com Palis em agendas cruciais para a ciência brasileira, como o Código Florestal e o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação. Ela destacou ainda o “Jacob família”, carinhoso com filhos e netos, e o “Jacob cidadão”, defensor incansável da inclusão e das políticas públicas de ciência.

“Tudo o que ele fez continua vivo em cada um de nós. Ele era, antes de tudo, um grande brasileiro. Um homem que não aceitava desigualdades e que acreditava profundamente no papel da ciência para transformar o país”, afirmou Helena.

Na mesa do evento, o diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, lembrou de quando conheceu Palis em uma conferência na Universidade de Coimbra (Portugal), em 1975. “Eu era um jovem recém-graduado e Jacob era a estrela do evento. Ele não apenas assistiu à minha palestra como anunciou que estaria lá, o que resultou em uma sala lotada. Jacob interrompeu várias vezes a minha apresentação, fez muitas perguntas e, ao final, me propôs fazer o doutorado no IMPA. Isso mudou completamente a minha vida. Eu não estaria aqui se não fosse por esse jeito do Jacob”, contou Viana.

O depoimento de Viana ecoou o sentimento que marcou toda a manhã de homenagens: Jacob Palis não transformou apenas a matemática brasileira — transformou pessoas. “Tudo que ele tocava virava ouro”, disse a pesquisadora da UFRJ, Maria José Pacífico, que relembrou a grandiosa trajetória de Palis. “Jacob abriu caminho para o Rio de Janeiro sediar o ICM 2018, o primeiro da América Latina. Pavimentou a trajetória que levou a Matemática brasileira ao marco histórico de conquistar uma Medalha Fields. Esse sonho, concretizado em 2014, foi o resultado de uma vida inteira dedicada a fortalecer e projetar a matemática nacional no cenário internacional. Ele não está aqui, transformou-se e agora voa suavemente com as borboletas deixando que as brisas de suas asas guiem as próximas gerações. Essa brisa vive e vai nos inspirar para sempre.”

Luiz Davidovich, professor emérito do Instituto de Física da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) fez questão de enfatizar a grande amizade com o cientista. “Amigo na felicidade, amigo na ansiedade e amigo na  preocupação. Foi assim com Jacob. Não dava para recusar nenhum pedido dele. Quando ele chegava para me pedir algo, eu começava a me tremer. ‘O que vem por aí?’”, contou aos risos. 

Maria José Pacífico, Helena Nader, Suely Lima, Luiz Davidovich e Jailson Bittencourt lembram gesto de Palis, que defendia a destinação de 2% do PIB para ciência.

O pesquisador do IMPA, Carlos Gustavo Moreira, que foi aluno de Palis, também compartilhou com o público memórias e ensinamentos do mestre. “Ele dizia isso para lideranças do mundo inteiro: é preciso estimular os jovens, não sobrecarregar o jovem cientista com muitas aulas; é necessário deixá-lo viajar, fazer pesquisa, realizar o pós-doutorado. Ele sempre defendeu a criação de um sistema em que o jovem tivesse liberdade para fazer ciência de alto nível.”

Suely Lima, coordenadora de Eventos e Atividades Científicas do IMPA e viúva de Palis, lembrou, com bom humor, o início turbulento dela no instituto — após sair de uma multinacional repleta de regras, estranhou o ambiente informal e o ritmo intenso de Jacob, sempre viajando, sempre exigente. “Achei que não ia ficar. Mas fiquei. E, como disse o Marcelo [Viana], foi uma mudança na minha vida”, contou. 

Suely descreveu como Palis atravessou todas as suas fases pessoais e profissionais, apoiando-a em decisões importantes, incentivando-a a viajar mesmo quando ela hesitava por causa dos filhos pequenos, e conduzindo o IMPA com uma personalidade rara. “Tudo dava certo com ele. O que sou hoje, devo ao Jacob”, afirmou. Ao entrar no auditório e ver o pôster do marido, emocionou-se: “Tive a impressão de que ele vinha na minha direção, com aquele sorriso. Vou sentir falta pela eternidade.”

Lindolpho de Carvalho Dias, diretor-geral do IMPA entre 1966 e 1989 com interrupções em 1969 – 1971 e 1978 – 1979, também esteve presente na celebração e lembrou momentos importantes divididos com Palis no Instituto. Jorge Guimarães, ex-presidente da Embrapii e da Capes, falou do papel de Palis na transformação do IMPA em Organização Social. 

Autoridades também prestaram homenagem

As homenagens contaram com mensagens em vídeo de autoridades que conviveram com Jacob Palis ao longo de décadas e que ressaltaram, sob diferentes perspectivas, sua influência decisiva na formulação das políticas científicas brasileiras. Os depoimentos destacaram não apenas o matemático de projeção internacional, mas o articulador incansável que transitava com naturalidade entre universidades, ministérios e órgãos de fomento, sempre defendendo a ciência como projeto de país. De ministros a dirigentes de instituições parceiras, todos enfatizaram seu papel determinante na consolidação de programas estratégicos, na aproximação entre academia e governo e na construção de uma visão de longo prazo para a pesquisa nacional. Confira abaixo trechos dos depoimentos.

Sérgio Rezende, ex-ministro da Ciência e Tecnologia (2005-2011)
“Foi um grande cientista e um defensor incansável da ciência no Brasil”, afirmou.

Aloizio Mercadante, ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (2011–2012) “Ele dignificou a ciência brasileira e elevou o patamar da nossa matemática”, afirmou.

Clélio Campolina Diniz, ex-ministro do MCTI (2014 a 2015)
“Sou testemunha de sua dedicação, da sua ética e de seu empenho pela ciência brasileira”, disse.

Celso Pansera, ex-ministro do MCTI (2015 a 2016)
“Tenho profundo respeito e gratidão. Jacob foi um grande brasileiro”, declarou.

Gilberto Kassab, ex-ministro da Ciência  (2016–2019)
“Ele me ligava duas vezes por semana para dar sugestões. O sorriso e a generosidade dele ficam na memória.”

Paulo Alvim, ex-ministro do MCTI (2022 a 2023)
“A matemática brasileira deve muito a ele. Sua resiliência e visão seguem como exemplo.”

Luiz Antônio Elias, ex-secretário-executivo do MCTI e atual presidente do FINEP. “Celebrar Jacob Palis é celebrar sua recusa ao conformismo e sua dedicação permanente aos jovens talentos.”

As homenagens ultrapassaram fronteiras. Bai Chunli, ex-presidente da Academia de Ciências da China e da TWAS, destacou a cooperação científica entre Brasil e China impulsionada por Palis, além de lembranças pessoais de visitas, parcerias acadêmicas e iniciativas conjuntas. “Ele foi um líder brilhante. Seu espírito vive no trabalho que continuamos a fazer”, afirmou. O francês Étienne Ghys, secretário perpétuo da Academia de Ciências da França, falou sobre a importância de Palis durante o período em que viveu no Brasil e no IMPA. “Cheguei ao Rio, ao IMPA, em 1979, e Jacob me ajudou, encontrou um apartamento para mim. Foi um momento fantástico na minha vida pessoal e científica. Entendi que era possível fazer matemática com amizade, com muito calor, e tudo isso por causa do Jacob.”

O encontro “Celebrando a vida de Jacob Palis” está disponível no YouTube da ABC.