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‘Ainda bato um bolão’: aos 70 anos, Luiz Velho celebra trajetória

“Estou com 70 anos, mas ainda tô batendo um bolão e continuo ‘still crazy after all these years’, como disse meu amigo Gilberto Câmara [cientista da computação] em alusão a música do Paul Simon.” A frase resume o momento atual do pesquisador do IMPA Luiz Velho. Aos 70 anos, Velho segue entusiasmado com novas possibilidades de pesquisa e descobertas e terá sua trajetória homenageada nesta quinta-feira (1º) no SIBGRAPI 2026 (Conference on Graphics, Patterns and Images), em Goiânia. 

Criada em 1988 com apoio de Velho, o SIBGRAPI chega à 39ª edição e reúne pesquisadores de áreas como computação gráfica, visão computacional, reconhecimento de padrões e processamento de imagens. A apresentação especial em homenagem ao pesquisador será nesta quinta-feira (1º), às 10h30, durante uma sessão de apresentação de artigos do periódico ‘Computers & Graphics’. 

A iniciativa é de Afonso Paiva, professor do ICMC-USP e ex-aluno do IMPA, e de Luiz Henrique de Figueiredo, pesquisador do IMPA e parceiro de Velho desde a criação do Visgraf. “Fiquei muito feliz, muito surpreso também, e muito agradecido. E até emocionalmente tocado por isso. Bom, espero que eu sobreviva, que o meu coração sobreviva”, conta Velho.

Da formação ao desenvolvimento da Computação Visual

Formado em Desenho Industrial pela ESDI/UERJ, Velho fez mestrado em Computação Gráfica no MIT Media Lab, doutorado em Ciência da Computação na Universidade de Toronto e pós-doutorado em Matemática Aplicada no IMPA. Sua trajetória acadêmica e profissional foi construída na interseção entre matemática, computação e mídias, com trabalhos em áreas como modelagem, renderização, processamento de imagens e animação.

Antes de se dedicar à pesquisa no IMPA, passou por diferentes centros de pesquisa e empresas. Em 1982, foi pesquisador visitante no National Film Board of Canada. Entre 1985 e 1987, trabalhou na Fantastic Animation Machine, em Nova York, onde desenvolveu o sistema de visualização 3D da empresa. De 1987 a 1991, foi engenheiro principal da TV Globo, onde criou sistemas de efeitos especiais e simulação visual.

Sua atuação também ultrapassou os limites da pesquisa acadêmica. Em 1979, seu trabalho resultou no primeiro filme de animação computadorizada produzido no Brasil. Também atuou como pesquisador visitante na Universidade de Nova York, nos Laboratórios HP e na Microsoft Research China, além de ter sido professor visitante do Courant Institute, da NYU, em 2024.

Foi ainda durante o período na TV Globo que Velho participou da criação do SIBGRAPI. A conferência nasceu em 1988 e, desde então, tornou-se um dos principais espaços de encontro da comunidade brasileira de Computação Visual.

No ano seguinte, já no IMPA, Velho e o pesquisador Jonas Gomes ministraram o minicurso “Introdução à Computação Gráfica” durante o Programa de Verão. A grande procura pela atividade contribuiu para o desenvolvimento de uma nova linha de pesquisa no Instituto, que daria origem ao grupo posteriormente consolidado como Visgraf (Laboratório de Visão e Computação Gráfica do IMPA).

Uma visão para a Computação Visual

No IMPA, Velho ajudou a construir uma concepção de Computação Visual que aproxima diferentes campos relacionados à produção, ao processamento e à representação de imagens e modelos matemáticos. “Fomos um dos primeiros grupos no mundo que disseram: olha, a gente tem que ver essa área assim”, explica Velho.

A proposta aproximava computação gráfica, processamento de imagens, visão computacional, modelagem e outras áreas relacionadas às mídias. Para o pesquisador, tratava-se de compreender a Computação Visual como uma forma de matemática aplicada computacional voltada para mídias.

Ao longo de mais de três décadas, o Visgraf ampliou sua atuação em frentes como modelagem, visualização, processamento de imagens, animação e multimídia. Mais recentemente, pesquisas do grupo também passaram a explorar aprendizagem de máquina, inteligência artificial, mídias neurais, realidade expandida e representações neurais.

A produção de Velho acompanha essa trajetória. Além da extensa produção em conferências, livros e cursos, o pesquisador tem 92 artigos registrados em periódicos na base de publicações do Visgraf.

Entre os reconhecimentos de sua produção está o destaque recebido no aniversário de 50 anos da revista “Computers & Graphics". Um estudo bibliométrico publicado para marcar a data colocou Velho como o 4º autor mais produtivo da história do periódico. A relação com a revista também se estende ao Visgraf: desde a década de 1990, pesquisadores do laboratório publicaram 28 artigos na publicação, 23 deles em coautoria com Velho.

Ao longo da carreira, o pesquisador também recebeu distinções como a Ordem Nacional do Mérito Científico e o Honors Prize do II Prêmio Compaq de Ciência da Computação. Foi o primeiro pesquisador da América Latina a integrar, em 1999, o Comitê de Artigos da SIGGRAPH e recebeu diversos prêmios de melhor artigo e melhor vídeo em conferências de Computação Visual.

Um laboratório feito de pessoas

Se a produção científica ajuda a dimensionar a trajetória de Velho, a formação de pesquisadores e a comunidade construída ao longo das décadas são parte igualmente importante de sua história no IMPA. “O que realmente é a essência desse nosso laboratório, desse grupo de pesquisa? São as pessoas. É uma família”, afirma.

Ao longo dos anos, o Visgraf reuniu pesquisadores, estudantes, pós-docs, colaboradores e visitantes que seguiram diferentes caminhos depois de passar pelo laboratório. A comunidade ajudou a disseminar a pesquisa em Computação Visual por diferentes instituições e gerações.

A relação com o IMPA ocupa um lugar particular nessa trajetória. Depois de ingressar no Instituto, Velho recebeu diferentes propostas para seguir carreira no exterior, mas decidiu permanecer. “O IMPA pra mim é um lugar especial pelas pessoas”. 

A permanência também permitiu que acompanhasse transformações importantes no Instituto e na própria matemática. Velho destaca a expansão da matemática aplicada computacional e vê no atual avanço da inteligência artificial uma nova aproximação entre matemática e computação. “Fico muito contente desse momento que a gente tá vivendo, que é um momento de grande transformação na matemática”, afirma.

Para o pesquisador, o movimento de expansão da matemática aplicada computacional e da inteligência artificial também abre novas possibilidades para o IMPA e para o trabalho desenvolvido pelo Visgraf. “Acho que o IMPA teve os diretores certos na hora certa e que fizeram o que precisava ser feito, o que era o melhor. Fico muito feliz de ver que o Marcelo Viana está fazendo essa revolução no IMPA. O IMPA está sendo colocado na sociedade de maneira muito forte nacionalmente e mundialmente. Estamos avançando na matemática aplicada computacional, com inteligência artificial. Fico feliz de estar ajudando a levar isso à frente”.

Aos 70 anos, a trajetória de Velho atravessa diferentes momentos da Computação Visual, da animação computadorizada e dos efeitos visuais às pesquisas atuais em inteligência artificial e novas mídias. No centro dessa história, permanece uma comunidade formada ao longo de décadas, que continua produzindo pesquisa, formando pesquisadores e abrindo novos caminhos entre matemática, computação e mídia.