9º Prêmio IMPA de Jornalismo celebra vencedores no FestMat
A cerimônia de premiação do 9º Prêmio IMPA de Jornalismo foi neste sábado (29), no Festival Nacional da Matemática, no Rio de Janeiro. A edição deste ano foi histórica pelo número de mulheres reconhecidas: ao todo, nove mulheres foram premiadas nas categorias Matemática e Divulgação Científica.
Os trabalhos selecionados abordaram temas que vão da estrutura matemática do Universo à origem da vida, passando pelo infinito, pela arte, pelas terras-raras e por questões de saúde pública. Confira aqui as matérias.
Durante a cerimônia, os ganhadores participaram de uma mesa-redonda e compartilharam os bastidores das reportagens premiadas. Conduzido por Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA e presidente da comissão julgadora, e Carla Russo, diretora da Corcovado Comunicação e integrante do júri, o encontro mostrou como perguntas surgidas de uma pesquisa, de uma leitura ou até de uma inquietação pessoal podem se transformar em pautas capazes de aproximar temas complexos do público.
“Criamos esse prêmio em 2018 com o objetivo de aproximar duas categorias profissionais que precisam colaborar, de um lado os cientistas e do outro lado os jornalistas”, explicou Viana. Segundo ele, cabe aos cientistas produzir conhecimento e aos jornalistas encontrar as melhores formas de comunicá-lo à sociedade.
Viana também chamou a atenção para o resultado inédito: a predominância feminina entre os premiados. “É incrível como ficou provado aqui, que jornalismo científico é assunto de mulher. Realmente bateu todos os recordes do período, e nós estamos especialmente felizes por isso. Isso me faz acreditar que nós estamos na direção certa com esse prêmio”, afirmou.
Matemática: do Universo ao infinito
Na categoria Matemática, o primeiro lugar ficou com Catalina Leite, do jornal O Povo, pela reportagem “Além dos números: como a matemática constrói a gramática do Universo”. A matéria aborda o poder preditivo da matemática e mostra como equações podem antecipar fenômenos como a antimatéria, as ondas gravitacionais e os buracos negros.
A pauta nasceu de uma dúvida pessoal da jornalista, que conta ter tido uma relação difícil com a matemática na escola: como uma área que tantas vezes lhe pareceu difícil poderia ser capaz de revelar aspectos do Universo? A conversa com a professora de matemática e física Mariana Mendonça ajudou a transformar essa inquietação em reportagem.
“A matemática não é um número. A gente pensa a matemática como numérica, mas a matemática, na verdade, é o conceito, a forma de pensar e estruturar esse pensamento”, explicou Catalina.
O segundo lugar ficou com Sthephany de Oliveira, do Jornal da USP, pela reportagem “Existem infinitos na natureza? Quando a abstração matemática nos aproxima da realidade”. A pauta surgiu de uma pesquisa em física que levantava questões relacionadas ao infinito e levou a jornalista a investigar também os limites entre realidade e descrição.
Para Sthephany, aproximar o público da ciência é também uma forma de estimular a participação na sociedade. “Eu acho que a gente colocar na mão do cidadão formas de enxergar isso também é uma questão de cidadania.”
O terceiro lugar foi para Paloma Oliveto, do Correio Braziliense, pela reportagem “Matemática ‘escondida’ na arte”. A jornalista chegou ao tema a partir de um estudo que utilizava ferramentas matemáticas para analisar padrões em pinturas.
“O jornalista fica ali no desafio de criar um texto agradável também, que ele possa ser lido tanto por alguém da área quanto por alguém que não está [familiarizado com o tema].”
Para Paloma, o desafio do jornalismo científico está em traduzir pesquisas complexas sem perder o rigor. “Tem que ser atrativo, sem leviandade.”
Divulgação científica: ciência em diferentes formatos
Na categoria Divulgação Científica, o primeiro lugar ficou com Maria Clara Rossini, da Superinteressante, pela reportagem “A vida através do espelho”.
A matéria parte de um fenômeno conhecido como quiralidade — a propriedade de uma estrutura que não pode ser sobreposta à sua imagem no espelho — para discutir uma questão fundamental sobre a vida: por que as moléculas que formam os seres vivos apresentam uma preferência por uma das duas formas possíveis?
Maria Clara já conhecia o conceito de moléculas de “mão direita” e “mão esquerda”, mas foi a relação do fenômeno com a vida que despertou seu interesse.
“Fiquei fascinada porque quando a gente produz em laboratório a gente consegue produzir os dois tipos. Então por que a vida ‘escolheu’ um desses lados para compor tudo que existe?”
A pergunta levou a jornalista a investigar diferentes hipóteses para a origem dessa assimetria e a possibilidade de que a busca por vida fora da Terra ajude a responder à questão.
O envolvimento com a pauta foi intenso. “Fiquei completamente obcecada por essa reportagem quando eu estava escrevendo”, contou.
A investigação também a levou a conhecer outras questões relacionadas à assimetria da natureza e à quebra de simetria no próprio Universo. Para a jornalista, a premiação reconhece uma área que escolheu seguir desde o início da carreira.
O reconhecimento, segundo ela, foi especialmente significativo por estar ligado a um trabalho feito com curiosidade e paixão. “Fico especialmente feliz porque foi algo que fiz com tanta paixão, com tanta curiosidade.”
O segundo lugar ficou com Ed Wanderley, da Agência Pública, pela série em áudio “A Última Bolacha”. Produzida em formato de podcast, a reportagem investiga a relação entre alimentação, obesidade, indústria e saúde pública no Brasil, combinando investigação jornalística e narrativa em áudio para discutir um tema presente no cotidiano a partir de diferentes perspectivas.
“Fiz com que o projeto não fosse sobre perder peso, eu queria que fosse sobre jornalismo, sobre serviço e sobre ciência”.
O terceiro lugar ficou com Frances Jones e Yuri Pinheiro de Vasconcelos, da Pesquisa FAPESP, pela reportagem “A conquista das terras-raras”. A reportagem acompanha os esforços de pesquisadores, universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras para dominar diferentes etapas de exploração e processamento das terras-raras, elementos estratégicos para diversas tecnologias e para a transição energética.
“A reportagem buscou mostrar o estágio de desenvolvimento do Brasil no ciclo produtivo desses elementos. O desafio foi colocar isso no papel para o público leigo e o resultado foi a reportagem que vimos”, explicou Yuri em vídeo exibido na cerimônia.
Carla Russo comentou a atualidade dos temas das reportagens ganhadoras. “Terras-raras é um assunto que está dominando o noticiário, mas nem todo mundo entende o que é. O mesmo ocorre com ultraprocessados e canetas emagrecedoras. Esses trabalhos prestam um serviço ao explicar com base na ciência temas tão atuais e importantes".
A 9ª edição do Prêmio IMPA de Jornalismo concedeu menções honrosas nas duas categorias. Em Matemática, para Carolina Nalin (O Globo) e Bruno Romani (O Globo)’ e em Divulgação Científica para Fernanda Zibordi Paulo (Galileu), Maria Eduarda Soares Toledo e equipe (Metrópoles) e Vanessa Monteiro da Silva e equipe (Amazônia Vox).
Viana exaltou ainda a presença da presidente da Academia Brasileira de Ciências, Helena Nader, e da jornalista Sabine Righetti, professora no Labjor-Unicamp e cofundadora da Agência Bori, na comissão julgadora. “Aproveito para agradecer a Helena e a Sabine pelo tempo dedicado ao Prêmio e pela contribuição nesse importante processo de definição dos ganhadores”.
Criado em 2018, o Prêmio IMPA de Jornalismo busca aproximar jornalistas e cientistas e reconhecer trabalhos que contribuam para levar a matemática e a ciência a públicos mais amplos. Ao contemplar diferentes veículos, formatos e linguagens, a premiação celebra não apenas os trabalhos vencedores, mas também o jornalismo que ajuda a tornar a ciência parte da conversa cotidiana.








