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5 de September de 2018, 19:23h

No bar ou na escola, projetos popularizam a matemática

Karine Rodrigues

Quando alguém diz que detesta matemática, Carlla Vicna, 19 anos, sai do sério. Não por intolerância à opinião alheia, mas porque acredita que a aversão à disciplina, em grande parte, está associada à forma equivocada com que o assunto muitas vezes é apresentado em sala de aula.

“Faço grrr e também fico entristecida quando ouço esses comentários porque acho que a realidade poderia ser diferente, sabe? Se a matemática não fosse ensinada de maneira engessada, acredito que essas pessoas iriam gostar de matemática”, avalia a estudante de graduação de Engenharia da Computação da Universidade Federal do Amazonas.

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Na expectativa de concluir a graduação no ano que vem, ela encontrou no Projeto Cosmos uma alternativa para mostrar a estudantes de escolas públicas do Amazonas quão interessante, na verdade, é a matemática. O foco da iniciativa de divulgação científica que ela criou com outros universitários é astronomia, mas ela trabalha os conteúdos de forma multidisciplinar.

“Usamos o tamanho dos planetas, para ensinar proporção, divisão, multiplicação. E eles ficam fascinados. Eles não tem ideia de quanto um planeta é maior do que o outro, de quão distantes estão. Quando a gente põe maquetes e trabalha os cálculos matemáticos, estamos reforçando os conceitos que eles precisam aprender, mas de forma bem divertida”, detalha Carlla, que nesta quarta-feira apresentou o Projeto Cosmos no Camp Serrapilheira, evento de divulgação científica que segue até sexta-feira, no Museu do Amanhã, no Rio.

Medalhista de prata da OBMEP, ela considera que a matemática pode ser vista como estimulante e desafiadora, desde que assim seja apresentada, como ocorre, segundo diz, na olimpíada de matemática realizada pelo IMPA. “Quando peguei aquela prova, achei as questões incríveis. Muita lógica”, recorda Carlla, que logo depois ingressou em uma escola técnica de ensino médio considerada privada e, por isso, não pode mais participar da competição – na época, a OBMEP era destinada exclusivamente para instituições públicas.

Denise trouxe o Pint of Science para o Brasil em 2015: crescimento exponencial  Filipe Costa / Rastro

Enquanto Carlla encontra formas de atrair estudantes do Ensino Básico para a matemática, outras iniciativas buscam expandir o assunto entre um público que, em sua maioria, já fez suas escolhas profissionais. Evento de divulgação científica criado no Reino Unido e realizado em 21 países,  o Pint of Science chegou ao Brasil em 2015, e as palestras realizadas sobre o tema têm conseguido garantir casa cheia, ou melhor, bares, restaurantes e cafés cheios.

A iniciativa leva cientistas para conversar com o público em lugares nada usuais, como bares, e foi trazida ao Brasil pela jornalista Denise Casatti, analista de comunicação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP). 

Na edição deste ano do Pint of Science, o diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, participou do evento. Em parceria com Ricardo Rosa, matemático, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre cervejeiro, eles surpreenderam o público contando histórias reveladoras sobre a matemática que existe em uma caneca de chope. O bate-papo rendeu. E entrou nas estatísticas do Pint of Science, que tem crescido exponencialmente no país.

O evento estreou em 2015 no Brasil em uma só cidade, São Carlos, onde foram realizadas seis palestras, que atraíram 400 pessoas. Este ano, a iniciativa se espraiou pelo Brasil: 56 cidades, numa programação com 500 palestras, vistas por 40 mil pessoas. Durante os três dias do Pint, 885 cientistas compartilharam com  o público em geral os temas de seus estudo. “Todos os anos convidamos profissionais da área de matemática para fazer palestras”, contou Denise, que também apresentou o projeto no Camp Serrapilheira. 

Segundo Denise, o Pint tem mostrado para os próprios cientistas participantes quão importante é desenvolver a habilidade de se comunicar com grupos de diferentes perfis. “Como em outras áreas do conhecimento, matemáticos também não estão acostumados a falar com público não especializado. Há desafios. No contato com a plateia, eles mesmos percebem essa dificuldade e isso gera uma demanda para o próprio cientista buscar esse conhecimento.”

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