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4 de December de 2017, 09:31h

História inspiradora: Ricardo Oliveira, de Várzea Alegre (CE)

Foi na remota região de Vacaria, área rural do município de Várzea Grande, no interior do Ceará, onde não se contabiliza um habitante por quilômetro quadrado, que nasceu Ricardo Oliveira. Foi nesse pedacinho de chão, quase desconhecido, que o jovem conquistou fama em todo o país em 2006, quando participou pela primeira vez da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e ganhou uma medalha de ouro.

Na primeira fase da competição, que reuniu 14 milhões de estu­dantes, ele acertou 17 das 20 questões. O feito se torna ainda mais incrível quando se descobre que, até os 17 anos, Ricardo estudou apenas sob a orientação dos pais – agricultores que viviam de plan­tação para subsistência – e do irmão mais velho, Ronildo de Oliveira, tudo com uma boa dose de autodidatismo.

“Mesmo já tendo algum conhecimento, eu era considerado analfabeto, porque não tinha um documento dizendo que eu sabia das coisas”, diz.

A Escola Municipal Joaquim Alves de Oliveira ficava a apenas 1,5km do sítio da família, mas o que o manteve fora de seus muros foram as dificuldades de chegar ao local. Ricardo tem amiotrofia espinhal e a estrada de terra esburacada até o colégio tornava qua­se impossível o percurso na cadeira de rodas.

“NINGUÉM CONHECIA MEU POTENCIAL, NEM MESMO EU”

Nos períodos de chuva, a pequena propriedade da família ficava incomunicável. Mas quem disse que uma cadeira de rodas é limita­ção para esse rapaz cheio de garra e vontade de aprender?

Considerado “analfabeto funcional” até 2005 por não ter fre­quentado uma instituição de ensino, Ricardo teve os pedidos aten­didos quando a diretora bateu à sua porta.

PESCANDO ALUNOS

Ao ser empossada diretora em 2006, Erileusa Gomes recebeu dos gestores municipais a difícil tarefa de reduzir a evasão escolar, que então chegava a 15%. “Pedi aos professores que me indicassem os meninos que eles sabiam estar fora da escola. Uma professora de português me contou a história do Ricardo”, lembra a docente.

Após a família insistir junto à secretaria estadual de educação, o menino realizou uma prova de validação do conhecimento em 2005 e se tornou apto a cursar o sexto ano. No entanto, um ano depois, quando Erileusa apareceu em sua porta, ele continuava sem matrícula.

Aos poucos, Erileusa foi sabendo mais sobre o garoto que os professores descreviam como “muito inteligente, mas que nunca tinha frequentado a escola”. Quando o convidou para se matricular, ouviu prontamente que o sonho dele era estudar. “Naquela época, ninguém conhecia meu potencial, nem eu mesmo”, lembra Ricardo.

Como não havia transporte escolar disponível todos os dias, as au­las passaram a ser na casa do menino, com visitas semanais dos professores e dela própria. “Foi como um ensino à distância, só que sem internet”, brinca a pedagoga.

Ricardo só ia à escola para fazer provas, o que era mais do que suficiente para deixá-lo feliz. Nos dias em que tinha de ir ao colégio, sentava-se sem reclamar no carrinho de mão do pai para fazer o trajeto.

“Ele nasceu na família certa. Os pais enfrentavam os proble-mas. Nunca os vi tratar os dois filhos de forma diferente”, elogia a educadora. Para ela, se o rapaz hoje é bom com os números, o mérito é da mãe, Francisca. “Foi sua primeira professora. Ela o alfabe­tizou em casa mesmo. Mesmo diante do desinteresse das escolas, acreditou e estimulou o filho a estudar”.

O material escolar era levado ao sítio por Ronildo, irmão de Ri­cardo. Em visitas semanais, Erileusa recolhia as atividades para se­rem corrigidas pelos professores. Muitas vezes, chegavam ao sítio coleções inteiras de livros didáticos que o menino devorava, por horas a fio, sentado no chão.

Ricardo passou com facilidade nos últimos anos do Ensino Fundamental, e acabou virando o “terror” de alguns professores, que chegavam a tremer quando eram convidados a visitá-lo. “Al­guns diziam que não fazia sentido ir à casa dele, porque o Ricardo sabia mais do que eles”, brinca a diretora.

Finalmente em classe

Foi o irmão que apresentou Ri­cardo à OBMEP, quando ainda moravam no sítio em Vacaria. Ronildo participara da primeira edição, em 2005, e ganhara uma menção honrosa, a única do mu­nicípio. “Aquilo me provocou. Meu irmão foi uma pessoa marcante, porque fez a ponte entre mim e a escola, e depois me apresentou a OBMEP”, lembra o rapaz.

Ele admite que não tinha noção do al­cance do programa. “Quando vi que havia 17 milhões de alunos participando, en­tendi o tamanho do desafio”.

Ao ganhar sua primeira medalha de ouro, em 2006, Ricardo não tinha inter­net, computador, nem celular em casa. Foi a diretora Erileusa que acessou a pá­gina da Olimpíada em casa e imprimiu a lista dos alunos premiados.

Só em 2008 Ricardo começou a fre­quentar as aulas tradicionais, quando passou a estudar na Escola Municipal Presidente Castelo Branco, no centro de Várzea Alegre.

A medalha de ouro conquistada pelo rapaz de Vacaria chamou a atenção da prefeitura local, que alugou uma casa para a sua família no centro da cidade, perto do novo colégio onde Ricardo viria a ganhar mais duas medalhas de ouro nos anos seguintes.

A experiência na OBMEP levou Ricardo a dar palestras em esco­las do estado do Ceará, onde contava sua história e motivava a pla­teia a estudar e a participar de olimpíadas do conhecimento.

Apesar das inúmeras apresentações, ele admite que até hoje fica nervoso quando tem de falar em público. “Meu negócio é com os números, e não com as palavras”, conta, com seu jeito tímido.

Em 2010, com o dinheiro das palestras e da bolsa de estudos do Programa de Iniciação Científica da OBMEP, Ricardo ajudou a famí­lia a sair da dependência do programa federal Bolsa Família e a comprar uma casa.

Àquela altura, ele estava ingressando no Ensino Médio, na Escola Maria Afonsina Diniz Macedo, onde ganhou duas pratas e um ouro. Segundo Joaquim Oliveira, pai de Ricardo, a renda do filho foi essencial para a família ter uma vida melhor.

Estrada a trilhar

Hoje, aos 27 anos, Ricardo mora com a família em Cedro e está formado em Tecnologia em Mecatrônica Industrial no Insti­tuto Federal do Ceará (IFCE). Como sempre, não sossega enquanto não resolve uma questão matemática. Já chegou a passar uma se­mana com um problema na cabeça. “O complicado é quando esses problemas surgem em um sonho. É desgastante tentar resolvê-los dormindo.”

Para ele, os professores são grandes motivadores e servem de guias, ajudando o aluno a se desenvolver por si só. “Tanto a minha família quanto os professores que tive cumpriram muito bem os seus papéis e me motivaram”, reconhece.

No Ensino Médio, ele participou da criação do projeto “Racha Cuca”, pelo qual mais de 100 alunos do Ensino Fundamental de sua cidade aprenderam Matemática Olímpica.

“SER RECONHECIDO NÃO SÓ NA MINHA CIDADE, MAS NO PAÍS, FAZER UM CURSO DE ENSINO SUPERIOR. TUDO ISSO PARECE UM SONHO”

 Até participar da OBMEP, Ricardo sempre que pensava no futu­ro imaginava que os obstáculos seriam grandes. “Subir na vida, ter um emprego… Eu buscava as possibilidades, mas não encontrava. Sabia que só havia um caminho: o estudo”. Dos pais e do irmão, ele também sempre ouvia: “Segurar uma caneta é bem melhor do que uma enxada”.

Ao relembrar todos os passos dados desde que sua família con­seguiu, com a ajuda da diretora Erileusa, uma vaga em uma escola de Vacaria, Ricardo olha para o horizonte. “Eu vivia em um sítio iso­lado na área rural de uma cidade pequena do Nordeste, longe da escola. Um garoto deficiente e de família pobre. Que visão de futuro eu podia ter naquela época? Nunca pensei chegar aonde cheguei… Ser premiado seguidamente na OBMEP, ser reconhecido não só na minha cidade, mas no país, fazer um curso de ensino superior. Tudo isso parece um sonho.”

Muita coisa mudou na vida de Ricardo desde os tempos do sítio em Vacaria, mas, em sua nova casa em Cedro, percebe-se claramen­te que algumas coisas não mudaram: o desejo permanente de aprender, buscar desafios e seguir em frente, na companhia dos pais, os serenos e batalhadores Francisca e Joaquim.