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4 de December de 2018, 14:32h

Com a OBMEP, trimedalhista de Minas tornou-se autoconfiante

 

Medalhista da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas

Maria Eduarda no ICM 2018: a conquista do ouro na OBMEP

 

Karine Rodrigues

O que se aprende com a Olimpíada Brasileira de Matemática de Escolas Públicas (OBMEP)? Matemática, óbvio. Mas bastam dois dedos de conversa com algum premiado para se perceber que a resposta está incompleta. Maria Eduarda Camargo, 16 anos, por exemplo, conta ter aprendido também a ser autoconfiante e assim descobriu que pode escrever o próprio futuro.

“Até uns sete anos, quando perguntavam ‘O que você quer ser quando crescer?’, eu respondia: ‘Casar com um homem rico.’ É triste e muito vergonhoso lembrar disso, mas, infelizmente, ainda é a concepção que muitas meninas têm porque elas são ensinadas que para vencer na vida é preciso arrumar um menino rico para se casar. Com a OBMEP, mudei totalmente as minhas expectativas”, conta a adolescente, de Munhoz , no interior de Minas Gerais, cidade com pouco mais de seis mil habitantes.

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A autoconfiança de Maria Eduarda não chegou de repente. Foi construída pouco a pouco e veio para ficar. Em agosto, ao entrar pela primeira vez em um avião para vir ao Rio de Janeiro receber a medalha de ouro conquistada na OBMEP 2017, descobriu que o futuro dela até já possui “nome e sobrenome”: pretende cursar Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), uma das mais renomadas instituições de ensino do país. “Graças à OBMEP pude viajar de avião e foi uma sensação inexplicável. Só passava na minha cabeça: ‘eu quero fazer um trem desses’.”

O caminho entre Munhoz e São José dos Campos pode ser vencido praticamente num pulo, considerando as dimensões gigantescas do Brasil: de carro, 2 horas e 30 minutos. A distância, porém, se amplia quando analisamos dados socioeconômicos dos dois municípios, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na cidade natal de Maria Eduarda, “inteirinha rural”, como ela diz, 90,7% das receitas são oriundas de fontes externas, e o mais comum, segundo Maria Eduarda, é viver da plantação de batatas e do comércio leiteiro. Com cerca de 700 mil moradores, a realidade é outra no município paulista, sede de várias empresas tecnológicas. Lá, as receitas externas representam 54% do total.

Medalhista da OBMEP ao lado dos pais e irmã

Maria Eduarda ao lado dos pais, Juceli e Isabel, e da irmã mais velha, Jusciele

Mas quando Maria Eduarda decide trilhar um caminho, não importa a distância. Quem diz é irmã mais velha, Jusciele Nogueira Camargo, 30 anos, que ajudou a criar a caçula. “Quando entrei na universidade, ela estava na pré-escola. É determinada desde pequenininha”, revela a contadora, que decidiu deixar o emprego na loja de roupas informal, em Munhoz, e conseguiu uma bolsa para Administração em Socorro (SP). Depois tomou gosto por Contabilidade, fez nova graduação, uma pós e, atualmente, é autônoma. “Meus pais sempre nos incentivaram bastante nos estudos, cobrando também boas notas. Mas não de um jeito autoritário”, diz Jucieli, que mora em Pouso Alegre (MG) e, pelo menos duas vezes ao mês, vai a Munhoz.

Os pais, Isabel e Juceli, veem com alegria o progresso das filhas. Ambos não chegaram a concluir o Ensino Básico – ela estudou até o Ensino Fundamental; ele foi até o 1º ano do Ensino Médio. Trabalham em um sítio distante do centro de Munhoz. “Vivemos na cidade, mas meus pais praticamente moram no sítio porque eles saem de madrugada e voltam apenas à noite”, conta Maria Eduarda, que, de segunda a sábado, de 7h ao meio-dia, trabalha em um supermercado. Durante a semana, volta em casa apenas para almoçar e, depois, segue para a escola. “Aqui é tudo pertinho.”

Quando fez a OBMEP pela primeira vez, em 2014, Maria Eduarda mal conseguiu se concentrar. No ano seguinte, estranhou ao ser comunicado sobre uma prova justo num sábado. Depois descobriu que a notícia era ótima: passara para a segunda fase da olimpíada. Conseguiu uma menção honrosa. Naquela época, já estudava na Escola Estadual Emílio Moura, onde está até hoje, agora como aluna do 1º ano do Ensino Médio. “Soube do Banco de Questões da OBMEP e fui atrás. Quando comecei a acertar, fiquei mais feliz do que ao ganhar a medalha de ouro porque naquele momento vi do que era capaz.”

Com a menção honrosa, ela passou a se dedicar mais à Matemática. “Usava o wi-fi do meu vizinho para ver os vídeos do Portal da Matemática no meu celular. Um dia, contei sobre isso, mas ele não achou ruim. Disse que pelo menos era para uma coisa boa”, recorda. Com o trabalho no supermercado, ela garantiu um dinheirinho extra, suficiente para comprar um computador e pagar o próprio wi-fi.

Menina abraçada a bezerro

Meninota, no sítio da família, em Munhoz, no interior de Minas 

O despertar para a Matemática foi após a primeira participação na OBMEP. “Não me sentia muito desafiada. As aulas eram basicamente em cima do livro didático”, revela. Aos poucos, ela foi se aprofundando na disciplina. Ganhou bronze em 2016 e passou a fazer parte do Programa de Iniciação Científica da OBMEP, o PIC Jr, que ela define como um grande passo. “Mudei minha consciência sobre o que era Matemática. E o principal: vi que poderia ser autodidata. Isso porque, no Fórum Virtual do PIC, boa parte do conteúdo sequer tinha visto na escola. Precisei aprender sozinha. Foi muito bom porque aumentou a autoconfiança. Antes, Matemática era um monte de fórmula. Hoje, consigo fazer as fórmulas”, observa.

Professora há duas décadas, Cristina Brandão Ramalho acompanhou o progresso de Maria Eduarda, sua aluna durante três anos. “Ela evoluiu muito em Matemática. Além de ser dedicada, não mede esforços para ajudar os colegas da turma. Como estava em uma classe com vários alunos com dificuldades na disciplina, sempre que eu pedia, ela me ajudava. Além de brilhante, uma pessoa admirável”, avalia Cristina, que ensina Matemática na Escola Estadual Emílio Moura

A dedicação os estudos fez Maria Eduarda conquistar um ouro em 2017, medalha que ela recebeu em agosto no Rio, durante o Congresso Internacional de Matemáticos (ICM 2018), no Riocentro. Além disso, o empenho no PIC foi tão grande que este ano ela foi selecionada entre os cerca de 200 melhores bolsistas da OBMEP para participar do 6º Encontro do Hotel de Hilbert, em Florianópolis. Durante cinco dias, os estudantes puderam assistir palestras com renomados pesquisadores, participar de gincanas sobre Matemática e estreitas os laços, unidos pelo mesmo gosto.

Estudantes do PIC no Hotel de Hilbert tentam resolver jogos e desafios

No Hotel de Hilbert, encontro dos medalhistas da OBMEP: sonho realizado

“Quando meu coordenador deu a notícia, eu estava na escola. Dei um pulo de felicidade e comecei a chorar. Era algo com que eu sonhava. Foi a maior experiência da minha vida. Além das palestras, pude encontrar com pessoas esforçadas, que, mesmo com as dificuldades da vida, continuam em busca dos seus objetivos. São pessoas me motivam”, diz ela. Além de ídolos como o medalha Fields Artur Avila, Maria Eduarda se sente inspirada por estudantes que vivenciam experiências semelhantes, como os medalhistas Fabiana Loterio (ES), Leonardo Lima e Silva (PB), Mariana Bigolin Groff (RS).

Aos 16 anos, ela diz que se tornou uma referência em Munhoz. “A minha cidade é muito pequena. As pessoas não têm muita noção de que estudar dá futuro. Comecei a quebrar barreiras. As pessoas perguntam: ‘Nossa, com você conseguiu isso? O que você fez para conseguir estudar?’ Sou uma menina de 16 anos e já estou motivando tanto gente”, diz ela, emocionada.

Medalhista da OBMEP sentada tentando resolver problema da OBMEP

Concentrada em dos desafios do Hotel de Hilbert, em novembro, em Florianópolis

Antes inspirada, agora inspiradora. Ela passou a dar aulas de reforço para a segunda fase da OBMEP. E já colheu frutos. “Conseguimos duas menções honrosas. Para uma escola onde só tinha eu como medalhista, acho que foi bom”, conta. A OBMEP 2018 trouxe outra boa notícia: mais uma vez, Maria Eduarda ganhou uma medalha. A prata vai para coleção.

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