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13 de August de 2019, 18:30h

Pesquisadores se reúnem para homenagear Maurício Peixoto

Marcelo Viana e Alciléa Augusto inauguram a placa em homenagem ao pesquisador

Certo dia de 1955, três anos após a criação do IMPA, um jovem graduado em Engenharia e aficionado por Matemática entrou na biblioteca da instituição, folheou algumas publicações,  interessou-se por um assunto e resolveu estudá-lo. Tal decisão mudou a área de Sistemas Dinâmicos, contou o diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, nesta terça-feira (13), ao abrir a tarde de homenagens ao protagonista da história, Maurício Peixoto, um dos fundadores do IMPA, que morreu aos 98 anos, em 28 de abril.

“Ele encontra um artigo sobre um assunto que não havia essencialmente nenhum avanço em 20 anos e diz: ‘isso aqui é interessante, vou trabalhar sobre isso’. Sem orientador para dizer: ‘esse problema é bom’. Sem uma escola. Sem um ambiente que pudesse guiá-lo. Abre o artigo e decide”, detalhou Viana, em palestra na Jornada Maurício Peixoto, acompanhada por amigos, familiares e pesquisadores.

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Na ocasião, Peixoto encontrou o artigo dos soviéticos Aleksandr Andronov (1901-1952) e Lev Pontryagin (1908-1988), que abordava a ideia de estabilidade estrutural. Um ano depois de se debruçar sobre o assunto, Peixoto escreve uma carta ao americano Solomon Lefschetz (1884-1972), que criara o termo, contando sobre os avanços que conseguira. Logo veio um convite para uma temporada na Universidade Princeton, nos Estados Unidos, e o início do diálogo entre os dois. 

“Isso trouxe uma visibilidade ao trabalho que o Maurício estava desenvolvendo e fez com que ele pudesse apresentar os avanços que estava tendo a figuras do calibre de Stephen Smale, por exemplo”, contou Viana, acrescentando que o medalha Fields 1966 começou a visitar o IMPA e atraiu jovens matemáticos brasileiros que queriam fazer doutorado, entre eles, o pesquisador emérito do IMPA Jacob Palis.

Pesquisadores como Carlos Alberto Aragão destacaram o entusiasmo e simplicidade de Peixoto

No IMPA, o cearense nascido em 15 de abril de 1921 em Fortaleza desenvolveu estudos importantes. O Teorema de Peixoto, que caracteriza os campos de vetores estruturalmente estáveis em variedades compactas de dimensão 2, foi um marco matemático no Brasil e no mundo, relacionado a Sistemas Dinâmicos.

Entre as contribuições de Peixoto, Viana citou também os dois primeiros alunos de doutorado do IMPA, em 1962, ambos orientados pelo pesquisador emérito do IMPA. Destacou também o fato de Peixoto  ter sido o segundo brasileiro a dar palestra no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM), no Canadá, em 1974 – o primeiro foi Leopoldo Nachbin (1922-1993), também um dos fundadores do IMPA.

Pesquisador do IMPA da área de Otimização, Benar Svaiter contou ter mantido uma convivência “cordial e distante” com Peixoto, que se estreitou nos últimos anos, ao ser convidado pelo próprio para ser o editor de suas obras selecionadas. 

Durante os encontros para conversar sobre o livro, relatou Svaiter, ele foi descobrindo muitas afinidades com Peixoto, entre elas, a literatura e a música. 

“Em especial, certos autores que eu encontrava na biblioteca dele também estão presentes na minha, como Oscar Wilde, Joseph Conrad, Carlos Drummond de Andrade. A biblioteca dele é muito mais extensa, conhecia muito mais do que eu”, disse, considerando que o maior privilégio que teve, mais do que ser o editor de suas obras, foi tê-lo conhecido melhor. “Era uma figura admirável, não só como matemático”, destacou, enfatizando seu senso de humor e a capacidade de ser sintético. Citou ainda a generosidade, lembrando que o pesquisador doou o recurso ganho no Prêmio Moinho Santista por contribuições à área de Sistemas Dinâmicos, em 1969, para construir uma escola na área rural de Petrópolis.

Na infância, o físico Carlos Alberto Aragão considerava Peixoto um herói

No bate-papo com a plateia, o físico Carlos Alberto Aragão de Carvalho Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contou que tinha dois tipos de heróis durante a infância: os do futebol, como Didi e Garrincha, e os cientistas, como o próprio pai, matemático, de quem herdou o nome, Leopoldo Nachbin e Maurício Peixoto, o físico Mário Schenberg (1919-1990), entre outros.

Durante a homenagem a Peixoto, ele falou sobre a convivência com pesquisador na Academia Brasileira de Ciências (ABC), instituição onde ambos já atuaram como presidente, e sobre o encontro que resultou em um artigo escrito com o matemático e outros colegas. 

“Ele resolveu que ia aprender mecânica quântica com mais de 80 anos!”, frisou Carvalho Filho, elogiando a disposição do pesquisador. E recordou que os encontros aqui no IMPA para tratar do assunto foram memoráveis. Lamentou não tê-los gravado. “Isto é muito importante”, disse o físico, imitando um entusiasmado Peixoto defronte ao quadro, giz em punho.

Embora, por motivo de saúde, o químico José Israel Vargas, da Universidade Federal de Minas Gerais, tenha cancelado a vinda ao Rio, em vídeo, falou sobre o amigo, com quem conversava “pelo menos uma ver por semana”. Sobre o cientista, destacou a generosidade e o grande senso de justiça. E sugeriu a criação de um Prêmio de Matemática em memória do pesquisador emérito e um dos fundadores do IMPA.

Lindolpho de Carvalho destacou as posições de Peixoto no CNPq, ABC, SBM e USP

Diretor-geral do IMPA (1966-1989, exceto nos períodos 1969-1971 e 1978-1979), o professor Lindolpho de Carvalho Dias, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), recordou, especialmente, de quando Peixoto ganhou o concurso para catedrático na Universidade do Brasil, em 1951. 

Aluno do homenageado, ele contou que desenvolveu uma relação de muita empatia com o professor. O relacionamento se fortaleceu ainda mais quando foi convidado por Peixoto para ser monitor da disciplina de mecânica. Assim como ele, formou-se em engenharia, mas nunca chegou a exercer a profissão. Lindolpho também falou sobre o núcleo de matemática da Fundação Getúlio Vargas, criado em 1946 e no qual Peixoto participou ativamente. 

O matemático também registrou as posições encabeçadas por Peixoto durante a carreira no Conselho Nancional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ABC, Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e Universidade de São Paulo (USP). “Maurício contribuiu muito com a ciência e a academia, e deixa saudades”, disse. E concluiu sua fala com uma brincadeira: “Estava com a ideia de fazer uma homenagem pelo centenário dele, mas ele me frustrou.” 

Logo após as palestras, os pesquisadores subiram até o terceiro andar. Lá, a viúva de Peixoto, a matemática Alciléa Augusto, inaugurou a placa em homenagem ao pesquisador, em frente ao gabinete 338, ocupado por ele. Agradeceu a realização da Jornada, na qual as qualidades e o trabalho de Peixoto foram destacados por pesquisadores e amigos.

“Foi interessante. Falaram muito sobre a simplicidade dele, que realmente saltava aos olhos. Acrescentaria apenas dois pontos: o entusiasmo que ele tinha pelo conhecimento dos jovens, sempre incentivando muito os mais novos; e um olhar para os últimos trabalhos que ele publicou, sobre decomposição focal. Acho que não prestaram ainda muita atenção, mas creio que ele fez algo parecido com o que aconteceu no primeiro trabalho dele, sobre estabilidade estrutural, quando viu um artigo escrito em 1937 e deu um novo olhar sobre o tema.”

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