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6 de February de 2020, 10:45h

Para Dan Marchesin, ideias matemáticas vêm em ‘lampejos’

Cecília Manzoni

Inclinado sobre a mobília de madeira que projetou para o Laboratório de Dinâmica de Fluidos que fundou em 1987, no IMPA, Dan Marchesin reflete sobre as coisas que mais gosta na vida. “Adoro música clássica, literatura, cinema.” Completa com uma revelação inesperada. “Mas o que gosto mesmo é de não entender alguma coisa, e depois, em segundos, passar a entendê-la. Este instante de transição, que é um lampejo, me traz um prazer indescritível.”

Sua ocupação não poderia ser outra senão a de pesquisador. O desejo de “entender como as coisas funcionam” acompanha Dan desde os cinco anos de idade. “Montava e desmontava tudo que via pela frente. Às vezes conseguia montar de volta, as vezes não. Aí deixava lá, para a irritação dos meus pais”, brinca.

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Marchesin orgulha-se de ter se dedicado durante 40 anos para solucionar um mesmo problema em dinâmica de fluidos: escoamento trifásico em meios porosos. Em 1941, os físicos M.C. Leverett e Wilfrid Bennett Lewis anunciaram um modelo básico para o escoamento de petróleo, água e gás em meios porosos. Nestas quatro décadas, Dan Marchesin e colaboradores perceberam que este problema contém uma dificuldade fundamental, que é a ressonância não linear entre dois modos de escoamento. Reconhecendo esta ressonância, eles puderam estabelecer a existência de um tipo novo de onda na solução.

“Tendo identificado um problema de importante aplicação para o qual não havia matemática pronta, tentei conseguir o maior número possível de colegas para me ajudar a fazer esta matemática. Estamos colhendo o fruto disto agora. Quarenta anos no mesmo problema. É uma vitória!”, comemora.

Marchesin nasceu em Bucareste, na Romênia, em 1947, ano em que o regime comunista se consolidou no país do sudeste europeu. Infeliz com a conjuntura política, o patriarca da família decidiu que eles se mudariam para a Itália. Chegaram em Roma em 1949, onde residiram por oito anos. “Era o pós-guerra. A Itália era muito pobre e tudo parecia antigo em Roma”, relembra Marchesin.

Quando descobriu que viria para o Brasil, aos dez anos de idade, tratou de se munir de informações sobre o longínquo país. “Achei que ia encontrar crocodilos e índios”, conta. Ao desembarcar no Rio de Janeiro, se espantou com a modernidade dos prédios e construções urbanas. “O visual da cidade era mais moderno que Roma.”

Aos 18 anos, ingressou no departamento de Física da PUC-Rio para a graduação. “Fiz um bom curso, mas percebia que tanto os alunos quanto professores cometiam erros básicos de matemática, como em operações com sinais. Determinei para mim mesmo que para ser um bom físico, teria que me aperfeiçoar na matemática.”

Foi quando conheceu o IMPA, ao se matricular em cursos de iniciação científica. “Fui um dos atraídos pelo instituto. O IMPA era uma espécie de ‘clube’ da matemática: um centro que reunia pessoas com diversas linhas de pesquisa, engajadas no que estavam desenvolvendo”, conta o pesquisador, que chegou a frequentar tanto a sede na Rua São Clemente, em Botafogo, quanto à localizada na Rua Luiz de Camões, no Centro do Rio de Janeiro.

Depois de tantos cursos, Marchesin também foi definitivamente fisgado para a matemática. Começou a graduação na área, também na PUC-Rio, ainda enquanto cursava física. O cérebro “pifou” de tanto trabalho no último ano dos cursos, conta. Optou por formar-se em matemática e ingressou no mestrado da PUC-Rio.

Mudou-se para Nova Iorque, que considera “a cidade mais interessante do mundo”, em 1977, para um doutorado no renomado Instituto Courant. “Nunca tinha visto algo como aquilo antes. O instituto tinha uma variedade enorme de cursos, e eu queria fazer todos. Mas como não era permitido, foquei em uma área.”

Conciliava os estudo em dinâmica de fluidos com a agitada agenda cultural da ‘Big Apple’. “Ia a concertos, espetáculos de teatro, cinema… Muitas coisas da programação cultural da cidade eram gratuitas, o que convinha para o estudante. Com tanta festa, não era raro alguns alunos abandonarem o doutorado.” Também não era incomum encontrar celebridades como o diretor Woody Allen, com quem esbarrou na tradicional Pizzaria Vesuvio, no bairro Greenwich Village. Para Marchesin, o cineasta era “baixinho e mal-humorado”.

Dan e colaboradores do Laboratório de Dinâmica de Fluidos do IMPA

Na esfera profissional, passou a se dedicar também ao estudo da matemática computacional. “Meu orientador, James Glimm, estava trabalhando em um problema que precisava de ferramentas computacionais, mas não entendia nada de computação. Em contato com o professor Eugene Isaacson, que foi um segundo orientador para mim, decidi estudar dinâmica dos fluidos e métodos numéricos aplicados à atmosfera.”

Permaneceu por dez anos em Nova Iorque, onde também fez pós-doutorado na NASA, no laboratório de Centro de Voos Espaciais Goddard; na Universidade Rockefeller e no Instituto Courant. Ao fim desta empreitada, casado e com um filho de dois anos, achou que era hora de voltar para casa. “Tomar conta de criança pequena em Nova Iorque não tem graça”, brinca.

Veio para o Brasil com uma vaga para professor assistente na PUC-Rio à sua espera. Em 1987, surgiu a oportunidade de integrar o corpo de pesquisadores do IMPA. Notando a ausência do uso de computadores na pesquisa matemática brasileira, criou o Laboratório de Dinâmica de Fluidos. “Os computadores já estavam pegando fogo lá fora. Então era necessário que o Brasil não ficasse para trás. Colocar uma área computacional no IMPA atrairia atenção.”

Desde então, a sala 108 abriga um grupo diverso de alunos e pesquisadores. “Tem gente de iniciação científica, do mestrado em Física na PUC e até ex-alunos do IMPA”, afirma o fundador do laboratório. O foco é estudar objetos que transitam entre a matemática abstrata e a computação para a resolução de desafios tecnológicos.

Fornecer a infra-estrutura necessária é uma preocupação. “Recentemente conseguimos 40 monitores enormes. Fazemos questão de ter o melhor recurso de visualização possível. Quando se está trabalhando com movimento de fluidos, você tem que entender o que está acontecendo. Não dá para usar uma telinha pequenininha”, explica.

Com uma linha de pesquisa marcada pela interdisciplinaridade, Dan acredita que as disputas entre a matemática pura e a matemática aplicada são pessoais. “A rixa é entre matemáticos, e não na matemática. Quando se olha a história, se percebe que elas não têm sentido. Pitágoras era um matemático puro ou aplicado? À época dele, era aplicadíssimo.”

Com mais de cinquenta anos de pesquisa produtiva, o matemático é membro titular da Academia Brasileira de Ciências, já conquistou a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e a Ordem Nacional do Mérito Científico do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Integra, desde 2002, a Third World Academy of Sciences.

Para o pesquisador nascido na Romênia que se considera “muito brasileiro”, “a tecnologia influencia enormemente a matemática”. “Por que Newton olhou para o céu, para a astronomia? Era a época das grandes navegações. Para localizar uma pessoa na terra, ele olhava para o céu. Tinha-se que medir ângulos, e daí nasceu a trigonometria. A matemática sempre foi útil”, afirma.

Recentemente, tem canalizado sua energia para dar andamento a projetos interrompidos. “Comecei a notar que podia e devia terminar certas coisas. Me concentrei em terminar trabalhos cujas técnicas já tinham sido desenvolvidas. Estou aqui todos os dias, o dia inteiro.” Mas mesmo fora do instituto, a matemática não sai da cabeça. “Certa vez, estava no meio de um concerto, no Canecão, quando de repente tive uma ideia para um problema. Minha mulher que me ature”, brinca.

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